O diálogo entre a criação estética e a urgência climática ganha um novo fôlego na capital angolana. Após a participação na 4.ª Bienal de Luanda 2026, as obras do projecto artístico-científico “Fronteiras Líquidas, Marés em Mudança” estarão patentes nesta quarta-feira, 28 de outubro, na Escola Nacional de Administração e Políticas Públicas (ENAPP), integrando a Conferência Nacional sobre Poluição Costeira.
A iniciativa, apresentada pelo ResiliArt Angola, cruza arte contemporânea e investigação científica para dissecar os desafios socioambientais da península do Mussulo, colocando em evidência a gestão sustentável da água e os direitos fundamentais das comunidades locais. Integrado no movimento global ResiliArt da UNESCO, o trabalho estabelece um paralelo crucial entre a governação dos recursos hídricos transfronteiriços no continente africano e as pressões diárias que ameaçam o litoral luandense, como a ocupação desordenada, a poluição e a perda de ecossistemas.

O resultado exposto na ENAPP nasce de uma residência intensiva realizada de 16 a 21 de outubro, no Mussulo, reunindo oito artistas plásticos pan-africanos, sete alunos da rede pública de ensino e dez estudantes da American Schools of Angola. Durante seis dias de imersão e pesquisa de campo, o colectivo transformou materiais reaproveitados — como juta, tecidos descartados, redes e linhas de pesca abandonadas, além de pigmentos naturais recolhidos localmente — em peças artísticas carregadas de simbolismo. Cada criação conta com códigos QR que permitem ao público aceder directamente ao processo de pesquisa, à história dos materiais e aos bastidores que serão retratados na série documental “Vozes da Maré”, dividida em três episódios.
A intervenção dá continuidade à reflexão iniciada nos dias 22 e 23 de outubro durante a 4.ª Bienal de Luanda, centrada na governação da água enquanto ferramenta de prevenção de conflitos e paz social. Ao levar essa discussão para o ambiente de decisão política e formativa da ENAPP, o projecto alinha a arte às metas da Agenda 2063 da União Africana e ao Objectivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6 da ONU.

Desde a sua fundação em 2021, o ResiliArt Angola consolidou-se como uma plataforma estratégica para a internacionalização dos criadores locais e para o fortalecimento da cultura enquanto motor de transformação cidadã. Ao reunir comunidades, estudantes e decisores em torno da salvaguarda marinha, a exposição reafirma que a sensibilidade artística é indispensável para construir soluções duradouras para o património natural do país.

Este apelo à consciência colectiva e à conservação das nossas riquezas alinha-se directamente com a valorização dos ecossistemas de todo o continente, tal como explorámos no roteiro de cidades vibrantes a refúgios naturais, descubra o que visitar em África, reforçando que a beleza dos nossos mares e paisagens depende da acção urgente e coordenada de toda a sociedade.