Pilha no Gueto: Exercício Físico para Viver, Não Apenas para a Aparência

Redacção
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Como fundador do Projeto Pilha no Gueto, tenho acompanhado de perto a forma como a população da minha comunidade se relaciona com o exercício físico. Ao longo desta caminhada, marcada pelo contacto diário com crianças, jovens, adultos e idosos, fui observando comportamentos, motivações e desafios que me levaram a refletir sobre o verdadeiro significado da atividade física na nossa sociedade.


Criei o Projeto Pilha no Gueto com o objetivo de incentivar a prática do exercício físico na minha comunidade. Com o decorrer do tempo, observei que a maioria dos participantes do projeto eram idosos e crianças. Isso não me surpreendeu, pois tenho mais de 12 anos de experiência como instrutor de fitness e conheço bem as motivações que levam muitas pessoas a frequentar os ginásios.
Acreditava que, na periferia, a realidade fosse diferente. Porém, decidi fazer algumas visitas de campo a ginásios da comunidade e participar em conversas sobre a prática do exercício físico. Durante essas visitas, ouvi debates sobre esteroides anabolizantes e conversei com atletas bastante preocupados com a aparência física.
Em muitas dessas conversas, sempre que perguntava qual era o objetivo de treinar, as respostas eram quase sempre as mesmas: aumentar a massa muscular do peito, dos braços ou de outras partes do corpo. Entre as mulheres, o foco também pouco mudava: pernas mais grossas e glúteos maiores. Raramente ouvia alguém falar da saúde como principal motivo para praticar exercício físico.


Os casos de pessoas preocupadas com a prevenção de doenças, o controlo do peso, a melhoria da qualidade de vida ou o envelhecimento saudável eram poucos. A maioria procura o exercício físico sem um conhecimento profundo dos seus benefícios para crianças, jovens, adultos e idosos.


Talvez isso aconteça porque vivemos num país que ainda investe pouco na promoção da cultura física como estilo de vida. Muitas pessoas chegam ao exercício físico por recomendação médica ou pela vontade de alcançar determinados padrões estéticos.
Foi a partir dessa reflexão que nasceu uma das missões do Projeto Pilha no Gueto: lembrar às pessoas, em cada edição, que por trás de qualquer objetivo existe um corpo que precisa de cuidados. Um corpo que precisa de descanso, de movimento e de equilíbrio.


O exercício físico não deve ser praticado apenas para alcançar padrões de beleza. Deve ser praticado para viver melhor. E viver melhor nem sempre exige glúteos firmes ou peitorais desenvolvidos. Exige, sim, um coração saudável, níveis adequados de glicemia, controlo do peso corporal e hábitos que promovam o bem-estar.

Praticar exercício físico não é algo de outro mundo. É simplesmente uma decisão de priorizar o corpo, cuidar da saúde e investir numa vida mais longa e com mais qualidade.

Autor: Rui dos anjos dos Santos
Professor de educação física e instrutor de fitness.

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