“A arte só transformará Angola quando deixar de ser um nicho e passar a ser uma estratégia nacional” – Dominick Maia Tanner, galerista

Gracieth Issenguele
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Há mais de uma década que Dominick Maia Tanner tornou-se uma das figuras mais influentes na construção do ecossistema das artes visuais em Angola. Curador, produtor, galerista, coordenador de residências artísticas e coleccionador, o britânico, português e angolano, nascido em Londres em 1973, vive em Angola desde 2009, onde tem liderado projectos destinados à profissionalização do sector, à formação de novos públicos e à criação de um mercado sustentável para a arte contemporânea nacional.

Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, Dominick Maia Tanner faz um balanço dos seus 18 anos de trabalho no país, reflecte sobre os desafios do mercado artístico e revela a sua visão para que Luanda se afirme como um dos principais centros culturais do continente africano.

À frente do ELA – Espaço Luanda Arte, que celebra uma década de actividade, o galerista acredita que o seu maior contributo foi demonstrar que a arte pode ser organizada de forma profissional e sustentável. Quando chegou a Angola, encontrou artistas talentosos e produção curatorial de qualidade, mas identificou a ausência de estruturas capazes de transformar esse potencial em carreiras consolidadas.

Ao longo deste percurso, produziu centenas de exposições, apoiou dezenas de artistas, criou programas internacionais de residências, participou em feiras internacionais e lançou iniciativas como o ELA – Espaço Luanda Arte, o Angola AIR e a Luanda Feira de Arte (Art Fair Luanda). Mais do que organizar eventos, considera que ajudou a construir um verdadeiro ecossistema onde artistas, coleccionadores, empresas, instituições e público passaram a dialogar de forma mais consistente.

Apesar da evolução registada nos últimos anos, Dominick Maia Tanner defende que Angola continua a enfrentar um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do sector: a inexistência de uma cultura consolidada de coleccionismo privado.

Segundo explica, muitos angolanos apreciam a arte, mas ainda não a encaram como património, investimento ou responsabilidade cultural. Para alterar este cenário, considera essencial reforçar a educação artística, aumentar a transparência do mercado, criar incentivos fiscais, aproximar o sector empresarial dos artistas e implementar políticas públicas que promovam museus, fundos de aquisição de obras, leilões regulares e um mercado secundário sólido.

Para o curador, investir na arte significa investir simultaneamente na identidade nacional, na economia criativa e na imagem internacional de Angola.

Celebrando dez anos de existência, o ELA – Espaço Luanda Arte consolidou-se como muito mais do que uma galeria. O espaço tornou-se um centro de pensamento, investigação e debate, privilegiando exposições que abordam temas como a memória, a identidade, o pós-colonialismo, a urbanização, o património e o futuro de Angola.

“A arte deve fazer perguntas que a sociedade ainda não teve oportunidade de formular”, defende, explicando que cada exposição procura gerar reflexão crítica e não apenas proporcionar uma experiência estética.

É precisamente esta visão que o leva a acreditar que as exposições devem assumir um papel social e cultural mais activo.

“Uma exposição não deve limitar-se a apresentar obras. Deve criar conversas, desafiar preconceitos, estimular pensamento crítico e aproximar comunidades”, afirma, considerando que a arte continua a ser uma poderosa ferramenta de produção de conhecimento e transformação social.

Outro dos projectos que mais orgulho lhe desperta é o Angola AIR, programa internacional de residências artísticas criado em 2018, que já recebeu 25 artistas de diferentes países.

Segundo Dominick Maia Tanner, o impacto vai muito além da criação artística. Muitos dos participantes chegam com uma visão limitada sobre Angola e regressam aos seus países com uma percepção completamente diferente, descobrindo um território criativo, acolhedor e culturalmente rico.

Ao mesmo tempo, os artistas angolanos beneficiam do intercâmbio de metodologias, experiências e contactos internacionais, enquanto muitos artistas afrodescendentes vivem uma redescoberta das suas próprias raízes e identidade. Para o galerista, esta iniciativa constitui um dos exemplos mais eficazes de diplomacia cultural entre povos.

O crescimento da Luanda Feira de Arte (Art Fair Luanda) reforça, igualmente, a confiança no futuro do sector. Em apenas três edições, o evento passou de sete para vinte espaços expositivos, demonstrando, segundo o seu fundador, que o mercado começa finalmente a estruturar-se.

O responsável considera que galerias, artistas, coleccionadores, empresas e instituições passaram a reconhecer o valor da feira, transformando-a numa plataforma de encontro entre Angola, o continente africano e a diáspora.

Ainda assim, acredita que Luanda pode ir muito mais longe. Para que a capital se afirme como uma referência artística africana, defende a criação de um Museu de Arte Moderna e Contemporânea, de uma Bienal Internacional, de programas nacionais de residências artísticas, de incentivos ao mecenato e de políticas públicas que fortaleçam as indústrias criativas.

Na sua perspectiva, é igualmente fundamental garantir uma programação cultural permanente que transforme Luanda num destino artístico durante todo o ano, e não apenas em períodos de grandes eventos.

Construção de instituições

Depois de desempenhar funções como curador, produtor, galerista, coordenador de residências e coleccionador, Dominick Maia Tanner admite que o maior desafio da actualidade deixou de ser organizar exposições e passou a ser construir instituições.

“Uma exposição termina quando encerra. Uma instituição permanece para as próximas gerações”, sublinha, acrescentando que é essa missão que actualmente orienta todo o seu trabalho.

O galerista mostra-se optimista quanto ao interesse das novas gerações pelo coleccionismo e pela arte contemporânea angolana. Observa um número crescente de jovens empresários e profissionais que começam a compreender que adquirir obras de arte representa não apenas um investimento financeiro, mas também um contributo directo para a preservação da cultura nacional.

Apesar desse progresso, reconhece que ainda é necessário transformar esse interesse crescente num mercado verdadeiramente sólido e sustentável.

Quanto ao legado que pretende deixar, Dominick Maia Tanner é claro: deseja ser lembrado não pelo número de exposições que organizou, mas pelas instituições que ajudou a criar e pelas oportunidades que abriu a artistas e profissionais do sector.

A sua grande ambição para a próxima década passa por ver Angola dotada de um mercado de arte sustentável, de um Museu de Arte Moderna e Contemporânea, de uma Bienal Internacional de referência, de um programa robusto de residências artísticas e de uma nova geração de coleccionadores comprometidos com o património cultural.

“Sentirei que parte da missão foi cumprida quando um jovem artista conseguir construir uma carreira internacional sem precisar de sair de Angola para ser reconhecido. O verdadeiro sucesso será quando a arte deixar de ser vista como um nicho e passar a ser reconhecida como um dos pilares da identidade, da educação e do desenvolvimento económico de Angola”, conclui.

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