Diálogos no Museu Nacional de Antropologia: Angola AIR Apresenta ‘Open Studios’ com Akaiu Collective e Caio Luiz

Gracieth Issenguele
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Com oito anos ininterruptos de actividade e consolidação no panorama cultural da capital angolana, o Angola AIR (Artist-in-Residency) reafirma a sua vocação enquanto plataforma de reflexão crítica, acolhimento e intercâmbio transnacional. Sediado na Baixa de Luanda e com ateliers activos nas zonas do Chamavo e da Vila Alice, o projecto já acolheu 27 criadores internacionais de 15 países distintos. Para assinalar o culminar de mais quatro semanas de imersão e investigação no ecossistema local, a organização promove esta semana duas sessões abertas de Open Studio, no pequeno auditório do Museu Nacional de Antropologia.

A iniciativa proporciona ao público, à comunidade académica e aos agentes do sector um contacto privilegiado com as inquietações e os corpos de trabalho desenvolvidos em diálogo directo com o contexto social, material e cultural de Luanda. A primeira sessão, agendada teve início na última quinta-feira, 5 de novembro, pelas 18h00, dá palco ao Akaiu Collective, dupla formada pela criadora brasileira Victoria Santos e pelo artista moçambicano Luís Santos. Com moderação a cargo do artista multidisciplinar angolano Hélio Buite, a conversa visa dissecar uma produção visual assente na desconstrução contra colonial, nas vivências quer e no questionamento sistemático das estruturas de género e poder.

O nome do colectivo, com origem na designação tupi-guarani para cajueiro, estabelece uma metáfora afectiva e política entre as lutas dos povos originários sul-americanos e as comunidades da diáspora africana. Através de suportes híbridos que conjugam a fotografia, o vídeo, a colagem, a escultura e a performance, o colectivo transforma fragmentos e gestos da vida quotidiana em dispositivos de dissidência política, esbatendo as fronteiras entre o espaço íntimo e a esfera pública.

O ciclo de partilha pública destaca igualmente a investigação plástica do artista visual brasileiro Caio Luiz, natural da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. Na sua prática artística, o criador contrapõe-se aos estigmas da violência e exclusão frequentemente associados à periferia urbana, recorrendo a elementos do ambiente construtivo — tais como terra crua, areia, cimento e chapas de zinco — para reflectir sobre dinâmicas de sobrevivência, ocupação do solo e dignidade social. Ao integrar a própria terra nas suas telas e composições, Caio Luiz constrói uma poética telúrica onde a memória e a vivência comunitária assumem protagonismo central.

Ao ligar artistas residentes aos agentes, curadores e coleccionadores locais, o Angola AIR reforça a posição de Luanda como um centro fulcral de circulação artística internacional. Esta dinâmica de experimentação e diálogo visual aproxima-se de mostras contemporâneas na capital onde as exposições na Luanda Art Gallery marcam a inauguração de “Éclat: Brilho da Existência” no Maculusso, demonstrando a vivacidade com que as artes plásticas continuam a expandir horizontes e a instigar novos olhares em Angola.

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