Em entrevista à revista Chocolate Lifestyle, Yeda Morgado(@yeda_morgado) abriu o coração e revelou quem é para além das funções de jornalista, apresentadora e estrategista de marcas pessoais. Define-se como uma mulher em desenvolvimento intencional, explicou que sempre entendeu que “identidade não é apenas algo que se descobre, mas sim algo que se governa com consciência e propósito”.
Mais do que as funções que desempenha, Yeda afirma-se como uma verdadeira estrategista de vida, uma mulher de fé, esposa, mãe e líder, que aprendeu a alinhar propósito, influência e resultados ao longo da sua trajetória. Para a comunicadora, os títulos surgem como consequência natural do seu percurso, sendo a sua maior missão a responsabilidade de ajudar outras pessoas a ocuparem o seu lugar com clareza, autoridade e consistência.
RC- Como começou o seu percurso na comunicação e o que a levou a expandir para o universo da estratégia de marca pessoal?
YM-A comunicação começou como vocação, pois foi desde cedo uma qualidade muito apreciada pelos familiares e pessoas a volta, mas rapidamente tornou-se ferramenta de impacto. O jornalismo ensinou-me a ler contextos, a estruturar narrativas e a compreender o poder da percepção. A televisão deu-me palco, mas também disciplina, presença e responsabilidade pública. A transição para a estratégia de marca pessoal foi uma evolução natural. Eu comecei a perceber que muitas pessoas tinham competência, mas não tinham posicionamento. Tinham conteúdo, mas não tinham direcção. Hoje, o que faço é integrar essas duas dimensões: comunicação + estratégia para gerar influência com intenção.
RC- Houve algum momento decisivo que tenha redefinido a sua carreira e a forma como se posiciona hoje?
YM-Sim. Quando percebia que fazia mais do mesmo, que mesmo cheia de formações diferenciadas e eu não conseguia o posicionamento que eu sabia que merecia, porque eu era visível, mas não tinha a relevância que eu gostaria, a relevância que geraria uma percepção de valor que faria sentido para mim. Percebi que muitas pessoas passavam pela mesma dor, a dor da visibilidade sem estratégia que apenas gerava ruido e que todo o talento sem posicionamento estratégico estava a tornar-se um desperdício. Foi nessa fase da minha vida que deixei de atuar apenas como comunicadora e passei a estruturar perceções de forma consciente. Esse reposicionamento exigiu de mim maturidade, renúncia e foco. Mas foi o que me permitiu sair de uma lógica de execução para uma lógica de liderança.

RC- Num mundo cada vez mais digital, o que ainda falta às pessoas quando se fala de construção de marca pessoal?
YM-Falta profundidade. As pessoas estão muito focadas em aparecer, mas pouco comprometidas em sustentar aquilo que comunicam. Existe excesso de estética e escassez de estrutura. Exposição Excessiva e falta de direcção. Marca pessoal não se restringe a visibilidade, é sobre coerência, consistência e reputação construída ao longo do tempo e sem estrutura interna ninguém consegue sustentar uma marca com esses atributos.
RC- Como define, na prática, um posicionamento forte e autêntico?
YM- Posicionamento forte é sobre ser claro. Ainda há muita confusão sobre o tema posicionamento, onde a pressa das pessoas em evidenciar-se faz pensar que se trata apenas de diferenciação ou autenticidade a nível de percepção mercadológica. Na prática, posicionamento distingue 3 pilares: clareza sobre a pessoa é, consistência na forma como se apresenta e alinhamento entre discurso e entrega. Autenticidade, para mim, não é dizer tudo, é dizer o que é verdadeiro, de forma estratégica.

RC- Quais são os erros mais comuns que profissionais e empreendedoras cometem ao tentar afirmar a sua marca?
YM- O primeiro erro é tentar comunicar antes de estruturar. O segundo é copiar posicionamentos que não sustentam. E o terceiro e mais crítico, é subestimar o nível de exigência necessário para construir autoridade. Muitas querem reconhecimento, mas poucas estão dispostas a fazer o trabalho invisível que sustenta esse reconhecimento.
RC-. A consistência é um dos pilares do seu trabalho. Como se constrói essa consistência no dia-a-dia?
YM-Consistência não é motivação, é sistema. É ordem, disciplina, comprometimento com a sua marca. Constrói-se com clareza estratégica, disciplina e compromisso com o longo prazo. Não depende do estado emocional do dia, depende da identidade que a pessoa decide sustentar e esse é o maior desafio, daí eu mesma considerar-me uma mulher em desenvolvimento intencional.
RC- Trabalha com líderes e empreendedoras. O que distingue uma marca pessoal comum de uma marca com verdadeira influência?
YM- Influência não é alcance, é impacto. Eu sou fruto de Impacto de profissionais que não têm alcance astronómico, mas são relevantes, necessários e influentes, eu sou o meu primeiro caso de estudo. Uma marca comum comunica, uma marca influente move, reposiciona e gera decisão. A diferença está na profundidade da mensagem, na clareza do posicionamento e na capacidade de gerar transformação real.

RC- Até que ponto a reputação pode ser considerada um activo estratégico?
YM-Totalmente, a reputação é o activo mais valioso de uma marca pessoal porque ela fala por si antes da sua presença física. E mais importante: ela define as oportunidades que chegam até si ou que nunca chegam. A reputação é uma moeda de troca de qualquer marca pessoal.
RC- Que papel desempenha a comunicação não-verbal no processo de construção de autoridade?
YM-Um papel determinante. Antes de qualquer palavra, o corpo já comunicou, não comunicar também é comunicar. Presença, postura, olhar, silêncio, vestes, tudo constrói ou destrói a autoridade. A comunicação não-verbal é muitas vezes o que valida ou invalida o discurso.
RC- Como nasceu o Projecto Marcantes e qual foi a principal necessidade que identificou no mercado angolano?
YM-O Projecto Marcantes nasceu de uma dor que se transformou em leitura de mercado que era a de mulheres altamente capacitadas, com percurso, mas desalinhadas internamente e mal posicionadas externamente. Eu identifiquei uma lacuna crítica, havia formação, havia motivação, mas faltava estrutura de pensamento, direcção estratégica e suporte para sustentar o crescimento real. Marcantes surge, então, como uma plataforma de reposicionamento, um ambiente de confronto, alinhamento e activação de identidade, reposicionamento de Imagem começam a estruturar a reputação.

RC- De que forma esta plataforma está a contribuir para o reposicionamento feminino em Angola?
YM -Estamos a mudar o padrão. A mulher deixa de operar apenas na lógica da sobrevivência ou validação externa e passa a operar com consciência de identidade, posicionamento e influência. Marcantes não trabalha apenas autoestima foca-se na estrutura, decisão e responsabilidade e esse tripé muda completamente a forma como essas mulheres ocupam espaço na sociedade e nos negócios, e graças a Deus tenho tido resultados que testemunham essas transformações.
RC- Pode partilhar um caso ou transformação marcante que tenha testemunhado através do projecto?
YM-Tenho vários testemunhos e com eles um padrão evidente, mulheres que chegam com discursos fortes, mas sem direcção e saem com clareza estratégica sobre quem são, o que defendem e como se posicionar. Já acompanhei líderes que estavam estagnadas há anos e, após o processo, reposicionaram-se no mercado, aumentaram a sua visibilidade e começaram a gerar oportunidades concretas. Desde médicas, consultoras, profissionais liberais, cantoras, coachees, empresárias, muitas delas passaram pelo meu processo de Personal Branding em Consultoria, outras simplesmente por terem estado no Marcantes, onde conseguiram diagnosticar as suas limitações e decidiram fazer uma gestão mais intencional dos seus maiores activos de valor, as suas marcas. A transformação não é estética é estrutural.
RC- Que desafios ainda persistem para as mulheres que procuram afirmar-se como líderes de influência?
YM-O principal desafio é interno, não externo. Muitas mulheres ainda estão submersas em crenças limitantes, necessidade de aprovação e medo de exposição estratégica. Além disso, há uma dificuldade visível em sustentar consistência e assumir o nível de responsabilidade que a influência exige. E liderar é sustentar decisões, pressão e posicionamento.
RC- O que significa, para si, construir um legado e não apenas uma imagem?
YM-Imagem é percepção momentânea, legado é impacto sustentado ao longo do tempo. Construir um legado significa viver de forma coerente com aquilo que se comunica e gerar transformação que permanece, mesmo na sua ausência. Para mim, como cristã, sobretudo, é alinhar vida, fé, família e carreira de forma intencional, deixando uma marca que vá além da visibilidade.

RC- Como equilibrar autenticidade com estratégia num ambiente competitivo?
YM-Autenticidade sem estratégia é exposição desorganizada e pode gerar ruido que é o grande inimigo da reputação. Porém a estratégia sem autenticidade é manipulação, e não é sustentável por muito tempo. As pessoas percebem o que é de verdade com o tempo. O equilíbrio está na consciência, saber quem se é, o que representa e como traduzir isso de forma inteligente para o mercado. Não se trata de mostrar tudo, mas sim de mostrar o que é relevante, com intenção.
RC- Como vê a evolução do conceito de marca pessoal nos próximos anos, especialmente em África?
YM- África está a entrar numa fase de maturidade nesse tema. Estamos a sair de uma lógica de visibilidade superficial para uma lógica de posicionamento estratégico e construção de autoridade real. Somos um continente com características muito próprias, temos impacto real e as marcas que dão voz ao continente já estão a perceber o seu superpoder sustentando narrativas com muita estratégia e autenticidade intencional. Marcas pessoais que vão crescer em Africa são aquelas que combinam: conteúdo, autenticidade intencional, consistência, competência e credibilidade. E há uma oportunidade para profissionais africanos se posicionarem globalmente desde que saibam estruturar a sua narrativa e proposta de valor.
RC- Que conselho daria a alguém que quer começar hoje a trabalhar a sua reputação de forma estratégica?
YM-Pare de tentar parecer e comece a estruturar. Invista em clareza de identidade, defina o seu posicionamento e construa consistência na sua comunicação. E principalmente, entenda que reputação não se constrói com pressa. É resultado de decisões repetidas com coerência ao longo do tempo.
RC- Quais são os próximos passos de Yeda Morgado enquanto profissional e enquanto marca?
YM-Estou numa fase de expansão e consolidação. A nível estratégico, o foco é escalar o meu trabalho através de plataformas estruturadas, como o Projeto Marcantes e o desenvolvimento de novos produtos e conteúdo. Também estou a fortalecer a minha actuação junto de líderes e executivos, com uma abordagem mais aprofundada de posicionamento e influência. Paralelamente, mantenho a minha presença na comunicação social e na gestão empresarial, onde lidero, com o meu esposo, uma estrutura com mais de 100 colaboradores. O próximo nível é ampliar impacto em Angola e posicionar-me de forma consistente no contexto africano e internacional onde já tenho dado passos consideráveis.
RC- Fora do universo profissional, o que a inspira e a mantém alinhada com o seu propósito?
YM-A minha fé é o meu eixo, é o que me dá direcção, disciplina e discernimento. Para além disso, a minha família tem um papel central, é onde eu me realinho, recarrego e lembro do que realmente importa. O propósito não é algo que eu activo apenas no trabalho, é algo que eu vivo.
RC- Que valores nunca abdica, independentemente da dimensão do projecto ou da visibilidade?
YM-Integridade, coerência e responsabilidade. Não negócio quem eu sou para alcançar onde quero chegar. E isso, para mim, é inegociável.



