Da engenharia aos sabores: Marina Vatuva partilha fórmula de sucesso que está a conquistar Angola

Gracieth Issenguele
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Entre cálculos estruturais e receitas cuidadosamente equilibradas, Marina Débora Vatuva encontrou a fórmula perfeita para transformar conhecimento técnico em inovação gastronómica. Formada em Engenharia Civil, decidiu levar a precisão e o rigor da sua formação para um universo onde a criatividade e a sensibilidade ditam tendências: o da confeitaria gelada.

À frente da Adamarina, fundada em 2019, Marina tem vindo a afirmar-se como uma referência de resiliência e visão empreendedora, provando que mudar de rota profissional pode ser o início de uma história extraordinária. Esposa, mãe e empresária, equilibra com mestria os desafios da vida familiar com a exigência do mundo dos negócios, sempre movida pelo propósito de inspirar uma nova geração de empreendedores angolanos.

Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, a engenheira e empreendedora partilha os bastidores da sua trajectória, os desafios de empreender em Angola e a visão ambiciosa que tem para o futuro da sua marca.

RC: A sua formação em Engenharia Civil pressupõe uma abordagem técnica e estruturada. De que forma esses princípios influenciam hoje a gestão e o crescimento da marca Adamarina no competitivo universo da confeitaria gelada?

MV: De facto a minha formação em Engenharia Civil influencia de forma prática na gestão da Adamarina, no que toca a organização e controlo de qualidade, bem como na optimização de processos e na tomada de decisões baseada em dados, visando um crescimento sustentável e a longo prazo.

RC: O que a motivou a fazer a transição de uma área tradicionalmente ligada à construção para um sector criativo e sensorial como o dos gelados gourmet? Houve um momento decisivo nessa mudança?

MV: Apesar de serem mundos bem diferentes, um mais técnico e outro criativo, tiro o máximo partido dos dois mundos. Todavia, não houve um momento decisivo, a transição surgiu da paixão por gelados e da combinação da inquietação interna, oportunidade e propósito.

RC: Fundou a Adamarina em 2019. Quais foram os maiores desafios enfrentados no arranque do negócio e como conseguiu superá-los num contexto económico exigente?

MV: Sim, começamos em 2019 e não foi e nem é fácil começar um negócio em Angola, num contexto económico exigente e isso trouxe desafios inevitáveis. Os principais foram: falta de capital inicial, a dificuldade em garantir matérias-primas de qualidade e a conquista da confiança dos clientes num mercado tão competitivo quanto o nosso. Além disso, empreender exige lidar diariamente com medo, insegurança e constante adaptação. No fundo, acredito que ter um propósito claro, capacidade de adaptação e consistência no trabalho diário são fundamentais para superar esses desafios.

RC: A sua marca destaca-se pela combinação entre rigor de processos e autenticidade de sabores. Como equilibra a precisão técnica com a criatividade necessária para inovar neste sector?

MV: Eu encaro a produção como um processo tal como na engenharia: cada receita tem de ser bem balanceada. Isso requer trabalhar com receitas bem definidas, controlo de matéria-prima, testes de textura, estabilidade e comportamento do produto ao longo do tempo. Enquanto a criatividade me dá diferenciação e identidade. Quando esses dois lados, (técnica e criatividade) estão alinhados, consigo inovar sem comprometer aquilo que é essencial: a confiança do cliente em cada gelado que prova.

RC: Num mercado em constante evolução, quais são as tendências que considera mais relevantes na área dos gelados e como a Adamarina se posiciona face a essas mudanças?

MV: No mercado actual das sobremesas geladas, destacam-se tendências como a valorização de ingredientes naturais, nativas e premium, a inovação em sabores e texturas, a combinação entre nostalgia e modernidade, a procura por opções mais equilibradas e a importância da experiência visual e sensorial do produto.

A Adamarina procura sempre posicionar-se de forma alinhada a estas mudanças, apostando na qualidade dos ingredientes, na produção artesanal rigorosa, na inovação criativa dos sabores e na consistência do produto. Ao mesmo tempo, alia técnica e criatividade para oferecer uma experiência diferenciada, mantendo identidade, autenticidade e capacidade de adaptação às novas exigências do consumidor.

RC: Enquanto mulher empreendedora em Angola, sente que existem desafios específicos ligados ao género no mundo dos negócios? Como tem lidado com essas realidades?

MV: Realmente, existem desafios específicos para mulheres empreendedoras em Angola, sobretudo a necessidade constante de provar competência num ambiente ainda muito associado ao género masculino. O equilíbrio entre vida pessoal e empresarial tornam-se desafios adicionais. Tenho procurado lidar com essas realidades de forma profissional, com resiliência e autenticidade, desta forma acredito que é possível transformar desafios em força para crescer e consolidar a marca.

RC: Refere que a família é o centro da sua vida. De que forma concilia as exigências do empreendedorismo com o papel de esposa e mãe, mantendo esse equilíbrio que tanto valoriza?

MV: Conciliar o empreendedorismo com a vida familiar exige prioridades, organização e equilíbrio emocional. Procuro gerir o meu tempo com disciplina, estabelecer limites entre o trabalho e a vida pessoal e garantir momentos de qualidade junto da minha família. Acredito que o equilíbrio não é perfeito, mas sim um processo contínuo de adaptação, onde a família permanece sempre como o meu principal alicerce.

RC: Até que ponto o apoio familiar foi determinante para a construção e consolidação da sua carreira fora da Engenharia Civil?

MV: Empreender fora da Engenharia Civil exigiu coragem para começar, ainda mais numa área muito diferente. A família foi o ponto de apoio, principal, sem dúvida. Meu esposo é o meu super incentivador, quando se trata da empresa está sempre disposto e disponível para apoiar. São dois pesos tão grandes que, sem uma rede de apoio forte, quebra-se, e ter a confiança, o incentivo e a compreensão da família fez toda a diferença.

RC: A sua trajectória demonstra uma forte capacidade de reinvenção. Que conselhos daria a quem deseja mudar de área profissional, mas tem receio de arriscar?

MV: Sinto-me lisonjeada! Mas nem sempre foi desta forma, o medo do julgamento sempre ficou entre mim e a minha vontade de empreender numa área totalmente diferente da minha área de formação, o que é natural, mas não me impediu de dar o primeiro passo.

Aconselho a começar de forma gradual, estudar o novo sector, aceitar os erros como aprendizagem e manter consistência. Acima de tudo, é importante ter propósito e paixão pelo que se faz, porque isso dá força para enfrentar os desafios da mudança.

RC: Que estratégias tem adoptado para garantir a qualidade e consistência dos seus produtos, num sector onde a experiência do consumidor é determinante?

MV: A qualidade e a consistência são prioridades na Adamarina. Para garantir isso, apostamos na rigorosidade das receitas e processos, no controlo das matériasprimas, em testes constantes de sabor e textura, e no acompanhamento das condições de conservação. Também valorizamos o feedback dos clientes, porque acreditamos que a confiança do consumidor se constrói através da qualidade, autenticidade e atenção aos detalhes em cada produto.

RC: Para além do crescimento empresarial, fala também em inspirar outras pessoas. Que impacto gostaria de ter junto da nova geração de empreendedores angolanos?

MV: Gostaria de transmitir à nova geração de empreendedores angolanos que vale a pena, sim, acreditar nas suas ideias, valorizar o que é produzido em Angola e perceber que, com disciplina, criatividade e persistência, é possível construir negócios sustentáveis mesmo começando com poucos recursos. Incentivo de igual modo às e mulheres a inovarem, arriscarem e perceberem que empreender é, acima de tudo, gerar impacto e oportunidades para outras pessoas.

RC: Olhando para o futuro, quais são os próximos passos para a Adamarina e que visão tem para a expansão da marca, tanto a nível nacional como internacional?

MV: O futuro da Adamarina passa por consolidar a marca como uma referência de gelados artesanais em Angola, mantendo sempre a qualidade, autenticidade e inovação que nos diferenciam.

Mais do que crescer em números, queremos construir uma marca sólida, inspiradora e capaz de representar o empreendedorismo angolano de forma positiva dentro e fora do país.

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