Numa era dominada por métricas e algoritmos, defender a autenticidade tornou-se um ato de resistência e paixão. Duarte Reis, um dos nomes mais genuínos da criação de conteúdos em Angola, traz no seu percurso um olhar atento, crítico e profundamente apaixonado pelas riquezas locais. Desde a descoberta do potencial turístico do Lubango à promoção do destino Angola, o empresário e comunicador transformou a sua curiosidade num convite direto para que angolanos e estrangeiros vivenciem o país de forma autêntica.

Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate, Duarte Reis abre as portas do seu quotidiano, revela como equilibra a liderança da empresa Remodlar com a produção de conteúdos, defende o papel dos criadores no desenvolvimento do turismo e reforça que a verdadeira utilidade das suas viagens é transformar experiências em soluções reais para Angola.

Entrevista na Íntegra
Revista Chocolate RC: Quando e como começou o seu percurso na criação de conteúdos e o que o levou a focar-se na promoção de Angola e dos seus locais?
Duarte Reis DR.: Trabalho com criação de conteúdos desde 2014, mas foi no final de 2021 que comecei a olhar para as coisas de outra forma. Na altura, com a intenção de fazer uma crítica social, comecei a falar sobre algumas figuras públicas que iam a Lisboa tirar fotografias no Rossio, mostrando que muitas das coisas que as pessoas procuram na Europa também existiam no Lubango. Desde então, passei a olhar para o Lubango e, posteriormente, para Angola de outra forma. Percebi que, por mais que ainda tenhamos muito por fazer, algumas coisas já começaram a ser feitas e merecem ser valorizadas.
RC.: As suas partilhas sobre restaurantes e experiências são conhecidas pela sinceridade. Como garante a isenção nas suas avaliações?
DR.: Sim, as minhas avaliações são totalmente genuínas. É por isso que como tudo o que me é servido, para ter a minha própria opinião sobre a experiência, sem ficar limitado aos rótulos de “melhor isto” ou “melhor aquilo”. A ideia é que as pessoas possam conhecer a minha experiência naquele lugar e, a partir dela, decidir se também querem visitá-lo. É assim que transformo a minha experiência num convite para que outras pessoas conheçam o lugar por si mesmas.

RC.: Quanto tempo dedica à preparação de cada visita ou de cada conteúdo antes de gravar?
DR.: Acredita que, na maior parte das vezes, preparo muito pouco. Vou aos lugares como um simples cliente, precisamente para viver na primeira pessoa a experiência de ser atendido por aquele estabelecimento. A não ser que exista uma ideia preparada para a produção de um conteúdo que exija decorar falas ou seguir um guião, o resto é feito na hora, sem preparação prévia. No caso dos restaurantes, só preciso de estar com fome!
RC.: Como é a sua rotina no dia a dia entre a produção de conteúdos e o tempo pessoal?
DR.: Qualquer actividade profissional exige tempo e foco, por isso não sou muito diferente de um bancário. Tenho horários de produção e horários dedicados apenas à família. Por exemplo, raramente gravo vídeos ao fim-de-semana. Tenho uma agenda como a de um funcionário normal: de segunda a sexta-feira, das 8h às 15h, estou virado para a Remodlar e para a minha marca pessoal, Duarte Reis. Depois disso, o tempo é totalmente dedicado a mim e aos meus. Acredito que é importante saber organizar o trabalho para que ele não ocupe todos os momentos da nossa vida.

RC.: Para além de criador de conteúdos, tem também uma faceta empresarial. Como concilia essas duas áreas?
Duarte Reis DR.: Sim, sou empresário e estou ligado à Remodlar, uma empresa que trabalha na área do mobiliário e dos interiores. Gerir as duas actividades exige organização, porque ambas precisam de tempo e atenção. Por isso, procuro dividir o meu dia de acordo com as responsabilidades que tenho, sem deixar que uma actividade comprometa a outra. Como disse anteriormente, tenho horários definidos para trabalhar na Remodlar e na minha marca pessoal. A consistência nas redes sociais também passa por essa organização e por perceber que a criação de conteúdos, tal como qualquer outra profissão, exige dedicação.
RC.: Qual acredita ser o papel dos criadores de conteúdos na promoção do turismo e da cultura em Angola?

DR.: Acredito que o criador de conteúdos consegue ir mais a fundo do que o turismo tradicional. Qualquer turista que faça uma pesquisa sobre um destino vai encontrar os lugares mais instagramáveis e, na sua maioria, os mais conhecidos da cultura local. O criador de conteúdos consegue romper essa barreira e mostrar o destino com mais essência, dando a conhecer melhor a nossa terra, a nossa cultura, a gastronomia e os negócios locais. Acredito que temos a capacidade de mostrar coisas que, muitas vezes, passam despercebidas, ajudando as pessoas a olhar para Angola de outra forma e a valorizar aquilo que temos.
RC.: Já enfrentou momentos de dúvida ou vontade de desistir ao longo desta jornada digital?
DR.: Gosto muito do que faço e, até agora, o meu maior desafio tem sido a criatividade: às vezes, não saber o que criar. Quanto a factores externos, como não ter um equipamento de topo, não conseguir um patrocínio ou não ter um vídeo viral, essas coisas nunca determinaram se devo ou não continuar. Como disse, gosto muito do meu trabalho e sou o maior fã daquilo que faço. Se gostei de um vídeo, não é o facto de ele ser um flop que me vai dizer que não está bom! Nunca me ocorreu propriamente parar. No máximo, mudar de conteúdo, como tenho feito ao longo do tempo. Acho que faz parte da evolução de qualquer criador.

RC.: Quais são os seus maiores projectos e aspirações para o futuro?
DR.: Como qualquer sonhador, tenho sonhos que voam muito alto. Gostava que todo o conhecimento a que tenho tido acesso ao longo das minhas viagens por África se materializasse em soluções reais para Angola. Viajar permite-me conhecer outras realidades, perceber como as coisas funcionam noutros países e olhar para Angola com uma perspectiva diferente. Gostava de conseguir aproveitar esse conhecimento para contribuir para o desenvolvimento do nosso país, principalmente nas áreas do turismo e da valorização dos nossos destinos. Acredito que Angola tem muito potencial e que ainda há muita coisa por descobrir e por fazer. Por isso, gostava que as experiências que tenho vivido não ficassem apenas nos conteúdos que publico, mas que também pudessem dar origem a ideias e projectos que trouxessem benefícios reais para o país. Quero continuar a crescer como criador de conteúdos, conhecer mais lugares e partilhar essas experiências com as pessoas. Mas, acima de tudo, gostava de conseguir transformar parte daquilo que tenho aprendido nas minhas viagens em algo útil para Angola.
Ao unir a disciplina do mundo empresarial à sensibilidade de quem ama a sua terra, Duarte Reis posiciona-se como uma voz fundamental na nova narrativa do turismo angolano. A sua trajectória lembra-nos de que valorizar o que é nosso não exige um olhar idílico, mas sim genuíno, rigoroso e empenhado em construir soluções duradouras para o país.
