Maíra Tavares: Uma comunicadora refinada movida pela inquietude e incertezas da vida

Gracieth Issenguele
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Nascida em Luanda, no município do Cazenga, Maíra Tavares cresceu numa família humilde, mas fortemente estruturada em valores. A jornalista, comunicadora e estratega de comunicação recorda a adolescência como uma fase feliz, marcada pela descoberta de identidades, estilos, gostos musicais e debates apaixonados sobre ideias e convicções. Hoje, continua a carregar consigo a mesma curiosidade intelectual e a mesma necessidade de questionar o mundo que a rodeia.

Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, Maíra revela que a música clássica sempre foi a banda sonora da sua vida. Paralelamente, alimentou desde cedo uma paixão por conversas profundas sobre filosofia, religião, ética e literatura. Debater as diferenças entre agnósticos e ateus, discutir os conceitos de bem e de mal, defender as obras de José Saramago ou tentar compreender a complexidade literária de António Lobo Antunes são alguns dos exercícios intelectuais que mais aprecia.

A comunicação tornou-se o seu caminho natural. A experiência profissional em Portugal, onde colaborou com a RTP, foi determinante para moldar a sua visão sobre o jornalismo. Foi aí que desenvolveu uma profunda admiração pela forma rigorosa como os profissionais portugueses encaram a profissão, destacando nomes como Júlia Pinheiro e Daniel Oliveira. Entre as suas referências internacionais figuram ainda personalidades incontornáveis da televisão brasileira, como Fátima Bernardes, Glória Maria e Jô Soares.

Com uma personalidade forte e opiniões assumidas, Maíra não teme o debate. Pelo contrário, acredita que o confronto saudável de ideias é essencial para o crescimento intelectual. Defende os seus pontos de vista com argumentos sólidos, mas mostra-se igualmente disponível para os rever sempre que confrontada com informação credível ou raciocínios consistentes.

Questionada sobre o que melhor define o seu mundo interior, responde sem hesitar: a inquietude. É essa característica que a impulsiona a abandonar constantemente a zona de conforto, a procurar novos desafios e a abraçar o desassossego como forma de crescimento. Entre sorrisos, admite que se esquece frequentemente de datas importantes, incluindo aniversários, e que a gestão do tempo nem sempre é o seu ponto forte.

A paixão pelo jornalismo surgiu muito antes da profissionalização. Oficialmente jornalista desde os 18 anos, Maíra afirma que sempre soube o que queria ser. Ao longo do percurso passou por vários órgãos de comunicação social, entre eles a Rádio Viana, Rádio Kairós, Revista Lux, RTP, Rádio Nacional de Angola, Televisão Pública de Angola e Revista Jovens da Banda. Uma trajectória rica e diversificada que lhe permitiu conhecer diferentes linguagens e formatos de comunicação.

Actualmente, dedica-se à comunicação institucional, assessoria de imprensa, produção de conteúdos e apoio estratégico. Destaca-se pela capacidade de gerir informação, construir relações com diferentes públicos e apoiar processos de tomada de decisão, conciliando a experiência jornalística com as exigências da comunicação corporativa.

Apesar da vasta experiência acumulada, continua a encarar cada projecto como uma oportunidade para inovar. Defensora da criatividade como ferramenta de transformação, acredita que o jornalismo precisa de profissionais capazes de desafiar convenções, experimentar novas narrativas e acompanhar o que de melhor se faz no mundo. Para Maíra, a criatividade não é apenas um talento, mas uma necessidade para quem pretende marcar a diferença.

A sua visão de liderança também reflecte essa dimensão humana. Quando questionada sobre a forma como lida com os erros dos colaboradores, revela ser compreensiva e tolerante. Reconhece que falhar faz parte da condição humana, embora ressalve que a aprendizagem deve acompanhar cada erro.

O gosto pelo desconhecido é outra das marcas da sua personalidade. Maíra confessa sentir-se fascinada pela incerteza da vida e pela impossibilidade de prever o futuro. Entre a hipótese de vir a ocupar um cargo governamental ou seguir um caminho completamente diferente, prefere manter-se aberta às surpresas que o destino reserva.

Mas, acima de tudo, existe um valor que orienta a sua forma de estar: a lealdade. Mais do que uma palavra, é um princípio que procura praticar diariamente e que exige de si própria antes de o esperar dos outros.

Inspirada pelos versos de Fernando Pessoa, através da voz de Ricardo Reis, a assessora procura colocar-se por inteiro em tudo o que faz. Talvez seja essa entrega absoluta que explique o percurso de uma mulher que continua a desafiar limites, a reinventar-se e a acreditar que a inquietude, quando bem orientada, pode ser a maior força transformadora de uma vida.

E, mesmo perante os desafios, mantém uma regra simples que resume a sua essência: “Não me esqueço de sorrir para todos. Nunca me lembro porque é que já não me apetece sorrir para alguém.”

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