Porque é que cada vez mais mulheres estão a aprender a devolver o constrangimento?

Gracieth Issenguele
3 leitura mínima

Durante muito tempo, as mulheres foram educadas para preservar a harmonia em qualquer circunstância, mesmo quando isso significava suportar comentários invasivos, perguntas inconvenientes e situações desconfortáveis. Contudo, uma nova reflexão tem vindo a ganhar força nas redes sociais: a importância de deixar de absorver o desconforto provocado pelos outros e aprender a estabelecer limites saudáveis.

Segundo uma publicação da página de Instagram Garotas Estúpidas, “devolver o constrangimento” não significa entrar em confronto permanente nem ter sempre uma resposta perfeita na ponta da língua. Trata-se, sobretudo, de reconhecer que ninguém é obrigado a carregar o peso do incómodo criado por outra pessoa.

Situações como perguntas demasiado íntimas, comentários sobre a vida pessoal ou observações inadequadas em determinados contextos fazem parte do quotidiano de muitas mulheres. Perante esses episódios, a reacção mais comum tem sido ignorar, mudar de assunto ou fingir que nada aconteceu, numa tentativa de evitar conflitos e não serem vistas como pessoas difíceis ou mal-educadas.

Nas plataformas digitais, esta discussão tornou-se um verdadeiro movimento de consciencialização. Vídeos e podcasts têm dado espaço a mulheres que partilham experiências semelhantes e defendem a importância de reivindicar o direito de reagir. A influenciadora brasileira Lela Brandão resume esse sentimento ao afirmar: “Eu não vou condicionar a minha vida e o jeito que eu faço as minhas escolhas para não te gerar desconforto. Tenho uma vida só. Eu tenho um corpo só. Engolir essa raiva está me adoecendo”.

Mais do que uma tendência das redes sociais, esta mudança representa uma nova forma de encarar o autocuidado. Estabelecer limites saudáveis é um exercício de respeito próprio e de preservação do bem-estar emocional.

Especialistas e criadoras de conteúdos defendem que é fundamental desconstruir a ideia de que ser educada significa aceitar tudo em silêncio. Impor limites é um processo que exige prática, coragem e, muitas vezes, um trabalho interno de desaprendizagem de comportamentos adquiridos ao longo da vida.

Afinal, o desconforto não pertence a quem o recebe, mas a quem o provoca. E compreender essa diferença pode ser um passo decisivo para construir relações mais equilibradas, autênticas e respeitadoras. Embora possa ser um desafio, aprender a devolver o constrangimento, de forma assertiva e consciente, é também um acto profundamente libertador.

Compartilhe este artigo
Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *