“Quero que o leitor termine o livro um pouco mais desconfortável, mas também um pouco mais livre” – Taurina De S, autora.

Gracieth Issenguele
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A autora angolana Taurina De S. prepara-se para lançar, no próximo dia 28 de agosto, o seu segundo livro a solo, Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher, uma obra que promete desafiar convenções, questionar papéis sociais e provocar uma profunda reflexão sobre a condição feminina. Formada em Ciências Políticas e Administração do Território, empresária, servidora pública, mentora e conselheira de mulheres, a escritora tem vindo a afirmar-se pela abordagem crítica e introspectiva com que analisa as relações humanas, o autoconhecimento e as dinâmicas de género.

Após Os Benefícios do Autoconhecimento Antes de um Relacionamento, publicado pela Conselhos de Uma Taurina Edições, Taurina regressa com uma obra mais íntima e madura, onde cruza experiências pessoais e observações da sociedade para dar voz a inquietações que atravessam a vida de muitas mulheres. Nesta entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, a autora fala sobre o novo livro, o significado do seu título, os desafios da mulher angolana, o verdadeiro conceito de lifestyle e as expectativas para o lançamento da obra.

RC: “Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher” é o seu segundo livro a solo. Que mensagem espera que permaneça no leitor após virar a última página?

TS: Eu gostaria que permanecesse uma pergunta, mais do que uma resposta: quanto de nós existe na vida que estamos a viver?

Não escrevi Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher para ensinar mulheres a serem mulheres melhores, porque já temos gente demais a ensinar mulheres a serem tudo. Às vezes, falta alguém a perguntar se elas estão bem no meio de tanta competência.

Quero que o leitor termine o livro um pouco mais desconfortável, mas também um pouco mais livre. Que consiga reconhecer as coisas que aprendeu a suportar em nome do amor, da família, da moral, da aparência ou simplesmente porque “é assim mesmo”.

RC: O título da obra é forte e desperta curiosidade. O que simboliza a expressão “dolorosamente mulher” e até que ponto ela reflecte experiências pessoais ou observações da sociedade?

TS: O título tem uma história muito pessoal. Este livro nem sequer nasceu com o nome Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher. Nasceu como A Princesa Que Nunca Fui.

Esse título ficou comigo durante algum tempo, até eu perceber que ainda estava a tentar contar a história pela dor. Quando consegui separar a dor da aprendizagem, nasceu Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher. E A Princesa Que Nunca Fui não desapareceu: tornou-se um poema dentro do livro.

“Dolorosamente mulher” não significa que ser mulher seja uma condenação. Significa reconhecer que, em muitas sociedades — e a nossa não está isenta disso —, ser mulher ainda vem acompanhado de uma quantidade absurda de expectativas, renúncias e contradições.

Então sim, há muito de observação social. E há também muito de mim. Eu não conseguiria escrever sobre certas dores com tanta precisão se nunca tivesse precisado de aprender alguma coisa com elas.

RC: Sendo mentora, conselheira e activista, de que forma a sua experiência profissional influenciou a construção desta obra e das personagens ou reflexões nela presentes?

TS: Influenciou muito, sobretudo porque trabalhar com mulheres me ensinou que quase nunca existe apenas uma versão da história.

Como mentora, ouço mulheres que chegam com problemas completamente diferentes e, de repente, percebo que, por baixo de histórias diferentes, existem padrões muito semelhantes: mulheres que não sabem dizer não, mulheres que confundem amor com resistência, mulheres que se sentem culpadas por desejar uma vida própria.

Mas também aprendi a não romantizar a dor.

Talvez essa seja uma das coisas que mais atravessa o livro. Eu não queria escrever “ser mulher torna-nos fortes”. Às vezes, ser mulher apenas nos torna cansadas.

A minha experiência profissional ajudou-me a observar essas questões com mais distância e a minha experiência humana, infelizmente, ajudou-me a conhecê-las de perto. (risos)

RC: Na sua biografia, defende que o autoconhecimento é a base para relações saudáveis. Acredita que a sociedade angolana tem investido suficientemente na inteligência emocional e no desenvolvimento pessoal? Porquê?

TS: Não. E acho que ainda estamos muito mais preocupados em ensinar as pessoas a parecer bem do que em ajudá-las a estar bem.

Falamos muito sobre sucesso, casamento, dinheiro, estatuto, aparência e produtividade. Mas ainda temos alguma dificuldade em falar sobre limites, frustração, responsabilidade emocional, comunicação e saúde das relações.

Às vezes queremos que uma pessoa tenha inteligência emocional depois de passar vinte ou trinta anos a ser educada para engolir emoções. É quase como ensinar alguém a nadar depois de o atirar para o mar.

E existe outro problema: ainda confundimos desenvolvimento pessoal com frases motivacionais. O autoconhecimento não é olhar para o espelho e dizer “eu sou incrível”. Às vezes é olhar para o espelho e admitir: “eu também tenho sido o problema”.

Essa parte não costuma viralizar tanto. (risos)

RC: A sua escrita desafia normas sociais, tabus e padrões invisíveis. Qual foi o tema mais difícil ou mais sensível que decidiu abordar neste livro e por que considerou importante fazê-lo?

TS: O mais difícil talvez tenha sido falar sobre o preço que muitas mulheres pagam para serem consideradas boas mulheres.

Porque há dores que a sociedade não chama de violência, chama de sacrifício. Há mulheres que desaparecem dentro das próprias famílias e todos dizem que elas estão apenas a cumprir o seu papel.

Quis tocar também no amor, na maternidade, na liberdade, na sexualidade, no feminismo e nas contradições que existem dentro de tudo isso.

Não porque tenha respostas definitivas, mas porque acho perigoso quando uma sociedade deixa de fazer perguntas.

Eu não tenho interesse em escrever para deixar toda a gente confortável. Aliás, se toda a gente terminar um livro meu confortável, provavelmente eu falhei em alguma coisa.

RC: Vivemos numa época em que o lifestyle é frequentemente associado ao consumo e à aparência. Na sua perspectiva, como define um verdadeiro lifestyle angolano capaz de equilibrar sucesso, bem-estar, autenticidade e consciência social?

TS: Eu acho que precisamos de parar de confundir lifestyle com capacidade de pagar uma conta cara.

Um lifestyle verdadeiramente angolano deveria conseguir acomodar ambição e consciência. Podemos querer uma boa casa, viajar, vestir bem, empreender e ganhar dinheiro; não vejo virtude nenhuma em romantizar a falta de dinheiro. Mas sucesso não deveria significar perder completamente a ligação com quem somos ou com a sociedade onde vivemos para nos focarmos apenas em ganhar dinheiro.

Para mim, lifestyle é saber usufruir sem transformar o consumo em identidade.

Eu gosto de coisas bonitas. Só não acho que coisas bonitas sejam uma personalidade. (risos)

RC: Enquanto mulher angolana, quais considera serem hoje os maiores desafios enfrentados pelas mulheres que procuram conciliar carreira, família, realização pessoal e liberdade de escolha?

TS: Acho que um dos maiores desafios continua a ser a sensação de que, qualquer que seja a escolha, a mulher será julgada por aquilo que deixou de fazer.

Se trabalha muito, dizem que não cuida da família. Se se dedica à família, perguntam onde está a carreira. Se não quer casar, há sempre alguém preocupado com a sua “hora”. Se casa, começam as perguntas sobre filhos. Se tem filhos, perguntam pelo segundo.

Parece que existe sempre uma comissão informal encarregada de avaliar a vida das mulheres. (risos)

Eu não acho que a solução seja escolher entre carreira e família. A verdadeira liberdade está em poder construir uma vida que faça sentido para nós, sem que todas as escolhas tenham de ser justificadas perante uma plateia.

RC: Ao longo da sua trajectória publicou outras obras em coautoria. O que distingue Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher das publicações anteriores e o que representa este lançamento para a sua carreira literária?

TS: Este livro é muito mais meu.

Nas coautorias, existe uma beleza particular na construção colectiva. Mas Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher nasceu de um lugar muito mais íntimo. É uma obra em que a minha voz está inteira, inclusive nas minhas contradições.

Também sinto que este livro representa uma espécie de amadurecimento daquilo que comecei a procurar em Os Benefícios do Autoconhecimento Antes de um Relacionamento.

No primeiro livro, eu estava muito interessada em perguntar: quem somos antes de entrar numa relação?

Neste, a pergunta tornou-se maior: quem nos tornamos depois de uma vida inteira a aprender o que significa ser mulher?

E há ainda uma dimensão que me deixa particularmente feliz: os dois livros são publicados pela Conselhos de Uma Taurina Edições, selo literário que criei e desenvolvi.

Portanto, este lançamento não é apenas o lançamento de um livro. É também a afirmação de uma autora e de um projecto editorial que estou a construir com as minhas próprias mãos.

RC: O livro será lançado a 28 de agosto. O que podem os leitores esperar deste momento e quais são as suas expectativas em relação ao impacto da obra junto do público angolano e da diáspora?

TS: Podem esperar um lançamento que tenha muito pouco de cerimónia tradicional e muito de conversa.

Eu não queria colocar um livro sobre mulheres num palco distante das mulheres. Quero proximidade, perguntas, histórias, desconforto, riso e, provavelmente, algumas verdades que ninguém estava preparado para ouvir. (risos)

Quanto ao impacto, não tenho a pretensão de que o livro transforme a vida de ninguém em 100 páginas. Literatura não é cirurgia.

Mas espero que encontre mulheres que precisavam de ler determinadas palavras e homens que precisavam de compreender determinadas experiências.

E gostaria muito que chegasse à diáspora, porque ser mulher angolana fora de Angola também produz outras camadas de identidade, pertença e conflito.

RC: Se pudesse resumir Uma Vida Inteira Sendo Dolorosamente Mulher numa única reflexão dirigida às novas gerações de mulheres e homens angolanos, qual seria essa mensagem e porquê?

TS: Eu diria: não construam relações, famílias e vidas à custa da destruição silenciosa de alguém. Nem da vossa, nem da pessoa que está ao vosso lado.

Às mulheres, diria que não precisam de ser extraordinárias para merecer respeito. Não precisam de ser perfeitas, sacrificadas ou eternamente disponíveis.

Aos homens, diria que amar uma mulher não significa apenas protegê-la, sustentá-la ou desejá-la. Significa também conseguir vê-la como uma pessoa inteira, com vontade própria, ambição, limites, contradições e liberdade.

E talvez seja a grande questão do livro: ninguém deveria precisar de desaparecer de si mesmo para conseguir caber na vida de outra pessoa.

Se conseguirmos ensinar isso às próximas gerações, talvez elas não precisem de passar uma vida inteira a descobrir, dolorosamente, quem poderiam ter sido.

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