A compositora angolana Rosa Roque será homenageada nesta quarta-feira, no espaço cultural e recreativo Prova d’Art, em Luanda, por ocasião do seu 73.º aniversário — uma vida em que mais de metade foi dedicada à promoção da cultura nacional. Figura incontornável do movimento artístico angolano após a Independência, a mentora do emblemático grupo Gingas do Maculusso construiu um percurso marcado pela criação, formação e dinamização cultural, deixando uma herança profunda na música e na valorização do talento jovem.
Segundo o JA Online, a trajectória da artista, que absorveu grande parte da sua inspiração na província de Malanje, terra natal, e nos musseques de Luanda, será o centro de uma tertúlia especial que reunirá amigos, pesquisadores e jornalistas culturais. O encontro pretende revisitar a vida e a obra da compositora, reconhecendo o impacto do seu trabalho na história da música e da cultura angolana.

O coreógrafo e pesquisador cultural Maneco Vieira Dias, amigo e vizinho da artista no bairro Maculusso, recorda o surgimento de um importante movimento cultural naquele espaço. Segundo explicou, foi ali que Rosa Roque, juntamente com a conhecida Tia Boneca, contribuiu para dinamizar o ambiente artístico da chamada Zona 8, numa época marcada pela forte mobilização da juventude para a cultura. Dessa proximidade nasceu uma relação de mais de quatro décadas que se transformou também numa parceria artística e familiar.
De acordo com Maneco Vieira Dias, essa cumplicidade resultou em diversas colaborações culturais, incluindo a criação de coreografias que permanecem hoje vivas. O investigador recorda ainda a ligação com o projecto Kilandukilu, também originário do Maculusso, que ajudou a fortalecer os laços entre diferentes iniciativas culturais do bairro. Para o também presidente da Comissão da Carteira Profissional do Artista, Rosa Roque é muito mais do que a mentora das Gingas do Maculusso. “Sem receio de errar, deve ser das compositoras angolanas com mais temas gravados da sua autoria”, destacou.
Ainda segundo o coreógrafo, a criação das Gingas do Maculusso representou um marco histórico. A formação feminina tornou-se, na sua visão, “a maior e melhor estrutura artística feminina surgida após a Independência”, dando origem, mais recentemente, ao projecto Rogingas, que assegura a continuidade do legado.
Para Figueira Ginga, antigo integrante da ala masculina do projecto, Rosa Roque é uma “mulher com visão à frente do seu tempo”. O artista recorda que tudo começou em 1987, quando foi integrado em actividades artísticas coordenadas pela professora. Entre essas iniciativas estavam dois corais infantis: o Coral Gigante, composto por crianças entre os 7 e os 12 anos, e Os Patinhos, formado por crianças com menos de 7 anos de várias escolas do bairro Maculusso, ambos ligados à então Secretaria de Estado da Cultura.
A colaboração entre Figueira Ginga e a compositora prolongou-se por diversos projectos culturais e sociais, incluindo os quatro primeiros discos das Gingas do Maculusso. Entre os trabalhos mais marcantes estão os álbuns “Mbanza Luanda”, “Malanje Natureza e Ritmos”, “Xyami” e “Muenhu”, bem como o disco “Ndolo”. Para o artista, limitar Rosa Roque apenas ao título de compositora seria reduzir a dimensão do seu legado, que também se mede pelo impacto na formação cultural e humana de muitas crianças que passaram pelos seus projectos.
Outro testemunho marcante é o do músico Ângelo Ramos, antigo integrante do grupo infantil Pica-Pau, que considera Rosa Roque uma verdadeira “mãe da música infantil”. O artista recorda que, em 1985, a professora impulsionou a sua carreira ao prepará-lo para interpretar o tema “Wassamba”, inspirado no livro As Aventuras de Ngunga, de Pepetela. Também destacou o dueto “Ingulungumba Tunda”, cantado ao lado do malogrado Manax, como um momento decisivo na sua trajectória.
Segundo Ângelo Ramos, mesmo em tempos difíceis de guerra, Rosa Roque foi responsável por resgatar e preservar a canção infantil angolana através de projectos como Avilupa Kuimbila e as próprias Gingas do Maculusso, consolidando uma das contribuições mais importantes para a cultura nacional.
A continuidade desse trabalho também se reflecte em novos projectos. O quarteto Rogingas, formado por Wilma, Solene, Ana Carina e Cleide, estudantes do Complexo de Escolas de Artes (CEARTE), foi apresentado há cerca de um ano, no dia 8 de Março, demonstrando que a dinamizadora cultural continua empenhada em formar novas gerações. Outro exemplo é a jovem cantora Daniela Pegado, sua neta, que já tem participado em apresentações com as Gingas do Maculusso e em diversos espectáculos musicais.
Nascida a 4 de Março de 1953, em Malanje, Rosa Ermelinda Roque dos Santos construiu uma carreira profundamente ligada ao desenvolvimento cultural do país. Antiga funcionária dos ministérios da Cultura e da Educação, destacou-se como dinamizadora cultural, sobretudo no movimento da música infantil, com especial destaque para a criação do grupo Gingas do Maculusso, em 1982.
No ano passado, a compositora foi uma das personalidades da cultura condecoradas pelo Presidente da República, no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência Nacional, reconhecimento que reforça a dimensão do seu contributo para o património artístico do país.
As comemorações do aniversário incluem uma edição especial do Quintal do Dionísio, no espaço Prova d’Art Miramar, em Luanda, com a participação de várias figuras da cultura angolana, entre elas a jornalista Luísa Fançony, o crítico cultural Jomo Fortunato, o coreógrafo Maneco Vieira Dias, o músico Lito Graça, o jornalista Miguel Pacheco e a cantora Gersy Pegado.
Mais do que uma celebração de aniversário, a homenagem a Rosa Roque surge como um tributo a uma das mulheres que ajudaram a escrever capítulos essenciais da música e da cultura angolana, mantendo viva uma herança artística que continua a inspirar gerações.

