Determinada, resiliente e movida pelo propósito de transformar vidas, Luzimira João é uma das vozes mais activas na luta contra o cancro em Angola. Depois de enfrentar um diagnóstico de cancro da mama em 2011, transformou a sua experiência pessoal numa missão de esperança e apoio a milhares de pessoas, assumindo a presidência da Liga Angolana Contra o Cancro e fundando o projecto Rosa Esperança.
Actualmente, é também vice-presidente da Associação Lusófona para a Promoção da Literacia em Saúde Oncológica e continua a destacar-se pelo seu trabalho em prol da sensibilização e educação para a saúde. Agora, soma mais um desafio ao seu percurso: a candidatura à categoria Jovem Escritor dos Prémios Nova Geração.

Em entrevista à Revista Chocolate, Luzimira João fala sobre a sua trajectória, os desafios que enfrentou, o impacto do seu trabalho e os sonhos que ainda pretende concretizar, numa conversa marcada pela coragem, inspiração e vontade de fazer a diferença.
RC- Quem é Luzimira por detrás de tudo o que já sabemos sobre a sua história?
LJ- Sou uma mulher que ainda está a descobrir-se. Sou mãe, esposa e alguém que sabe o que quer da vida. Tenho um propósito e uma missão muito nobre: ajudar pessoas e fazer a diferença na luta contra o cancro.
RC- Em 2011 recebeu o diagnóstico de cancro da mama. Como se recorda desse momento?
LJ- Tudo mudou, absolutamente tudo. Recordo esse momento com nostalgia, porque, apesar de ter superado a doença, o cancro acompanha-me para sempre, por se tratar de uma condição crónica. Felizmente, tive um diagnóstico precoce, o que fez toda a diferença no tratamento e na resposta do meu organismo. Ainda assim, os tratamentos deixam sequelas e exigem uma grande força emocional para continuarmos a viver com qualidade.

RC- De que forma a doença impactou a sua vida pessoal e profissional?
LJ- O cancro afecta muito mais do que a saúde física. Tem impacto na vida familiar, profissional e emocional. Tive de reaprender a viver, adaptar a minha rotina e redefinir prioridades. Hoje sei que posso ter uma vida normal, mas diferente daquela que tinha antes do diagnóstico.

RC- Como conseguiu transformar essa experiência numa missão de vida?
LJ- Sou licenciada em Engenharia Electrónica e Telecomunicações, mas foi depois do diagnóstico que descobri a minha verdadeira paixão: o desenvolvimento humano. Concluí três mestrados, diversas especializações internacionais e dediquei-me à investigação e ao ativismo social. Hoje trabalho diariamente para apoiar pacientes oncológicos e as suas famílias.

RC- Atualmente, que funções desempenha?
LJ- Sou presidente da Liga Angolana Contra o Cancro, fundadora do projecto Rosa Esperança e vice-presidente da Associação Lusófona para a Promoção da Literacia em Saúde Oncológica. Através destas instituições procuro promover a literacia em saúde, apoiar pacientes e criar soluções para quem enfrenta a doença.
RC- Como nasceu o projecto Rosa Esperança?

LJ- O Rosa Esperança nasceu da necessidade de criar um espaço de apoio para mulheres com cancro. Começou como um grupo de auto-ajuda no WhatsApp, onde partilhávamos dificuldades, medos e vitórias. Com o tempo, tornou-se uma rede de apoio que já ajudou centenas de mulheres a reencontrarem esperança e a reconstruírem as suas vidas.
RC- Existe alguma história de superação que a tenha marcado particularmente?
LJ- Sim. Recordo-me de uma jovem de 23 anos que enfrentou um cancro muito agressivo e teve de abdicar da possibilidade de ter filhos biológicos. Estava profundamente fragilizada quando me procurou. Trabalhámos juntas a aceitação e a esperança. Hoje está bem, trabalha, vive a sua vida e continua a ser uma inspiração para mim.
RC- Como avalia o nível de informação dos angolanos sobre a prevenção do cancro?

LJ- Ainda existe muita desinformação. Persistem tabus, preconceitos e crenças que atrasam o diagnóstico e o tratamento. Precisamos de investir muito mais na literacia em saúde oncológica e promover campanhas durante todo o ano, não apenas em outubro.
RC- O que deve ser feito para melhorar essa realidade?
LJ- É fundamental continuar a sensibilizar a população, apostar na educação para a saúde e reforçar os programas de diagnóstico precoce. Quando o cancro é detectado a tempo, as probabilidades de sucesso do tratamento podem ultrapassar os 90%.
RC- Também é escritora e candidata à categoria Jovem Escritor dos Prémios Nova Geração. O que representa esta nomeação?
LJ- É um reconhecimento muito importante. Sempre gostei de escrever, mas foi depois do diagnóstico que comecei a partilhar a minha história e a incentivar outras pessoas a ressignificarem as suas vidas. Esta nomeação simboliza o reconhecimento de uma trajetória construída com muito esforço e propósito.
RC- Que mensagem gostaria de deixar às pessoas que enfrentam o cancro?
LJ- Que nunca percam a esperança. O diagnóstico não é o fim da história. É possível recomeçar, reinventar-se e voltar a brilhar. A vida pode mudar de rumo, mas continua a valer a pena ser vivida com coragem, fé e amor.



