Num contexto em que as empresas procuram cada vez mais eficiência, estratégia e resultados sustentáveis, Ariete Alexandre afirma-se como uma das vozes mais consistentes no debate sobre profissionalização da actividade comercial em Angola. Consultora e formadora especialista em áreas de negócios, certificada pelo CENFOR, construiu uma carreira marcada por disciplina, visão estratégica e impacto real no desempenho das equipas.

Com 16 anos de experiência no sector financeiro, sobretudo na área comercial, Ariete acumulou responsabilidades directamente ligadas ao crescimento do negócio, à gestão de equipas e à definição de metas e indicadores de desempenho. Numa entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, no âmbito do março mulher, a especialista fala sobre liderança, vendas, estratégia e os desafios que ainda persistem para as mulheres que ocupam posições de decisão.
RC: Ao longo dos seus 16 anos no sector financeiro, quais foram as decisões estratégicas que mais marcaram a sua trajectória profissional?
AA: Ao longo dos meus 16 anos de experiência no sector financeiro e segurador, houve algumas decisões estratégicas que marcaram profundamente a minha trajectória profissional. Uma das mais importantes foi a decisão de me posicionar sempre próxima do cliente, desenvolvendo a minha carreira na área comercial, o que me permitiu compreender de forma directa as necessidades reais do mercado e das pessoas. Outra decisão relevante foi apostar continuamente na formação e no desenvolvimento de competências em áreas como vendas, relacionamento com o cliente e gestão de equipas. Essa aposta permitiu-me evoluir profissionalmente e assumir desafios cada vez maiores dentro das organizações onde trabalhei.

Por fim, uma decisão estratégica que considero determinante foi avançar para uma visão mais empreendedora do negócio, procurando criar soluções e iniciativas que contribuam para o fortalecimento do ecossistema empresarial e para uma maior cultura de protecção e planeamento financeiro em Angola. Acredito que o sector financeiro tem um papel fundamental no desenvolvimento económico e social do país, e procuro alinhar o meu percurso profissional com esse propósito.
RC: Defende que vendas não dependem de motivação, mas de disciplina e método. Por que acredita que esta mentalidade ainda é pouco compreendida no mercado angolano?
AA: Acredito que essa mentalidade ainda é pouco compreendida no mercado angolano porque, durante muito tempo, a actividade comercial foi associada sobretudo ao talento natural ou à capacidade de persuasão individual. Muitas organizações ainda olham para as vendas como algo dependente apenas da motivação momentânea da equipa, quando, na realidade, os resultados consistentes vêm de processos estruturados, disciplina e método.
Vender é, acima de tudo, um trabalho estratégico que exige preparação, conhecimento profundo do cliente, acompanhamento contínuo e métricas claras de desempenho. Quando existe um método bem definido — desde a prospecção até ao acompanhamento pós-venda — a equipa comercial torna-se mais previsível, mais profissional e muito mais eficaz. No contexto angolano, ainda estamos num processo de maturidade empresarial em várias áreas, e isso inclui a profissionalização da função comercial. À medida que as empresas começam a investir mais em formação, processos e cultura de resultados, acredito que essa visão — de que vendas são disciplina, consistência e método — tende a consolidar-se cada vez mais.

RC: Que erros mais frequentes identifica nas equipas comerciais que impedem o crescimento sustentável dos negócios?
AA: Um dos erros mais frequentes nas equipas comerciais é a ausência de método e de processos claros de venda. Muitas vezes, as vendas dependem excessivamente do esforço individual de alguns colaboradores, em vez de estarem sustentadas por uma estratégia estruturada de prospecção, acompanhamento de clientes e gestão de oportunidades. Outro erro comum é o foco exclusivo no resultado imediato, sem uma verdadeira construção de relacionamento e confiança com o cliente.
O crescimento sustentável dos negócios exige consistência, acompanhamento pós-venda e uma visão de longo prazo na gestão da carteira de clientes. Também observo, em muitos casos, uma falta de investimento contínuo na formação e no desenvolvimento das equipas comerciais. O mercado está em constante evolução, os clientes estão cada vez mais informados e exigentes, e as equipas precisam de desenvolver competências não apenas em vendas, mas também em comunicação, negociação e inteligência emocional. Quando as organizações passam a olhar para a área comercial como uma função estratégica — com processos, métricas e capacitação contínua — os resultados tornam-se naturalmente mais consistentes e sustentáveis ao longo do tempo.

RC: Como consegue alinhar comportamento, estratégia e indicadores de desempenho num contexto empresarial desafiante?
AA: Alinhar comportamento, estratégia e indicadores de desempenho num contexto empresarial desafiante exige, antes de tudo, clareza de visão e consistência na liderança. As equipas precisam de compreender não apenas quais são os objectivos da organização, mas também qual é o papel de cada colaborador para que esses objectivos sejam alcançados. Procuro sempre garantir que a estratégia esteja traduzida em metas claras, mensuráveis e alinhadas com indicadores de desempenho bem definidos. No entanto, os números por si só não são suficientes.
É fundamental trabalhar o comportamento e a cultura da equipa, incentivando responsabilidade, disciplina, foco no cliente e compromisso com resultados sustentáveis.

RC: O Método VIP – Vendas de Impacto Personalizado já é reconhecido em Angola. O que o diferencia, na prática, de outras abordagens comerciais?
AA: O Método VIP – Vendas de Impacto Personalizado diferencia-se, na prática, por colocar o cliente no centro de toda a estratégia comercial. Mais do que uma técnica de venda, trata-se de uma abordagem estruturada que combina disciplina, método e personalização na forma como cada cliente é compreendido e acompanhado.
Enquanto muitas abordagens comerciais ainda se concentram apenas na apresentação de produtos ou serviços, o Método VIP procura primeiro entender profundamente as necessidades, expectativas e desafios do cliente. A partir daí, constrói-se uma proposta de valor mais ajustada, criando uma relação de confiança e não apenas uma venda pontual.
Outro elemento diferenciador é o foco no comportamento do profissional de vendas. O método trabalha aspectos como preparação, consistência, inteligência emocional, acompanhamento pós-venda e gestão estratégica da carteira de clientes. Isso permite transformar a actividade comercial numa função mais profissional, orientada por processos e indicadores de desempenho.
Na prática, o que torna o Método VIP relevante é precisamente essa combinação entre estratégia, método e relação humana. O objectivo não é apenas vender mais, mas criar impacto real, gerar valor para o cliente e contribuir para um crescimento sustentável dos negócios.
RC: Fundou o Sales Talk International Business com uma visão estratégica clara. Que impacto real este evento tem gerado no ecossistema empresarial?
AA: O Sales Talk International Business nasceu com o propósito de criar um espaço de reflexão estratégica sobre vendas, liderança comercial e desenvolvimento de negócios, temas que são fundamentais para o crescimento sustentável das empresas, mas que muitas vezes não recebem a devida atenção no ecossistema empresarial.
Na prática, o impacto do evento tem sido muito positivo, porque reúne empresários, gestores, líderes comerciais e profissionais de diferentes sectores para partilhar experiências, boas práticas e novas abordagens de mercado. Este ambiente de troca de conhecimento contribui para elevar o nível de profissionalização das equipas comerciais e reforçar a importância da estratégia nas vendas.
Outro impacto relevante é a criação de conexões e oportunidades de parceria entre empresas. O Sales Talk International Business tem funcionado também como uma plataforma de networking qualificado, onde surgem novas colaborações, projectos e iniciativas que fortalecem o ambiente de negócios.
A minha visão é que iniciativas como esta ajudam a consolidar uma cultura empresarial mais orientada para resultados, inovação e colaboração, contribuindo de forma concreta para o desenvolvimento do sector privado em Angola e para a valorização da função comercial como um pilar estratégico das organizações.
RC: Sendo certificada pelo CENFOR, até que ponto a formação contínua influencia a sua autoridade enquanto consultora e formadora?
AA: A formação contínua tem um papel determinante na consolidação da minha autoridade enquanto consultora e formadora. A certificação pelo CENFOR não representa apenas um reconhecimento formal de competências, mas também um compromisso com padrões de qualidade, rigor metodológico e responsabilidade na transmissão de conhecimento.
Num mercado cada vez mais exigente e competitivo, acredito que quem forma e orienta profissionais precisa, antes de tudo, de manter uma aprendizagem permanente. A actualização constante de conhecimentos, metodologias e práticas permite-me trazer para as empresas conteúdos mais actuais, aplicáveis e alinhados com os desafios reais do mercado.
Além disso, a formação contínua reforça a credibilidade junto das organizações e das equipas com quem trabalho. As empresas procuram cada vez mais especialistas que, para além da experiência prática, tenham também uma base técnica sólida e certificada.
Por essa razão, vejo a formação contínua como um investimento essencial não apenas no meu desenvolvimento profissional, mas também na qualidade do impacto que procuro gerar nas equipas e nas organizações com quem colaboro.
RC: Como avalia a maturidade da cultura de vendas em Angola actualmente? Estamos preparados para competir a nível internacional?
AA: A cultura de vendas em Angola tem evoluído de forma significativa nos últimos anos, acompanhando o processo de transformação e modernização do tecido empresarial. Hoje observamos cada vez mais empresas preocupadas com estratégia comercial, experiência do cliente e desenvolvimento das suas equipas de vendas, o que representa um avanço importante em relação ao passado.
No entanto, ainda existe um caminho relevante a percorrer no que diz respeito à profissionalização da função comercial. Em muitos contextos, as vendas continuam a ser vistas apenas como uma actividade operacional, quando, na realidade, devem ser tratadas como um pilar estratégico do crescimento empresarial. Isso implica investir mais em formação, métodos estruturados de venda, análise de indicadores e desenvolvimento de competências comportamentais nas equipas.
RC: No âmbito do Março Mulher, que desafios ainda persistem para as mulheres que lideram equipas comerciais e áreas estratégicas?
AA: No âmbito do Março Mulher, é importante reconhecer que houve avanços significativos na presença feminina em posições de liderança. No entanto, ainda persistem alguns desafios, especialmente para as mulheres que lideram equipas comerciais e áreas estratégicas dentro das organizações.
Um dos principais desafios está relacionado com a necessidade constante de provar competência e capacidade de liderança em ambientes que, historicamente, foram dominados por homens. Muitas mulheres acabam por enfrentar uma pressão adicional para demonstrar resultados e afirmar a sua autoridade profissional.
Outro aspecto relevante é o equilíbrio entre as responsabilidades profissionais e pessoais, que muitas vezes recaem de forma mais intensa sobre as mulheres. Esse contexto exige uma grande capacidade de gestão do tempo, resiliência e foco para conseguir conciliar diferentes papéis.
RC: A liderança feminina enfrenta, muitas vezes, expectativas adicionais. Já sentiu necessidade de provar mais para validar a sua competência?
AA: Todos os dias sinto isso.
RC: Para além da profissional disciplinada e orientada a métricas, quem é Ariete Alexandre na esfera pessoal? Que valores sustentam a sua consistência?
AA: Para além da profissional disciplinada e orientada a métricas, sou alguém que valoriza profundamente os relacionamentos, a integridade e o compromisso com o crescimento das pessoas à minha volta. Acredito que a consistência profissional nasce de uma base sólida de valores pessoais, que orientam cada decisão e cada acção no dia-a-dia. Entre os valores que mais sustentam a minha trajectória estão a responsabilidade, a resiliência e a ética. Procuro agir com transparência, assumir os desafios de frente e manter-me fiel aos meus princípios, independentemente das circunstâncias.
Além disso, sou apaixonada por aprendizagem contínua e pela partilha de conhecimento. Gosto de inspirar e motivar equipas, apoiar o desenvolvimento de outras pessoas e contribuir de forma concreta para um impacto positivo no ambiente profissional e social. Acredito que o equilíbrio entre resultados, propósito e integridade é o que transforma uma carreira em legado.
RC: Como equilibra a exigência da alta performance com o cuidado consigo mesma e com a sua vida pessoal?
AA: Equilibrar a exigência da alta performance com o cuidado pessoal é um desafio grande e constante, mas que considero essencial para manter resultados sustentáveis e bem-estar. Aprendi que não é possível liderar com excelência se não houver atenção à saúde física, emocional e mental.
Para isso, estabeleço rotinas que me permitem gerir o tempo de forma consciente, definindo prioridades claras entre compromissos profissionais e pessoais. A minha família é prioridade para mim, a saúde também e o trabalho, então procuro conciliar os três. Faço actividade física de manhã sozinha (treino e meditação) e, à noite, com a família, uma corrida leve ou desporto.
Procuro também delegar com confiança e criar equipas sólidas, o que me permite focar no que realmente acrescenta valor, sem sobrecarga.
Além disso, valorizo momentos de reflexão, exercício físico e convívio com a família e amigos, que me ajudam a recarregar energia e manter a clareza de pensamento. Acredito que a alta performance verdadeira não é apenas sobre produtividade, mas também sobre sustentabilidade, equilíbrio e qualidade de vida, que se reflectem directamente nos resultados que entrego.
RC: Que legado deseja deixar para as próximas gerações de mulheres que ambicionam liderar com estratégia, autoridade e impacto?
AA: O legado que desejo deixar é o de inspirar outras mulheres a liderarem com estratégia, autoridade e impacto, mostrando que é possível conciliar ambição profissional com integridade, disciplina e propósito. Quero que as próximas gerações percebam que liderança não é apenas ocupar cargos altos, mas criar valor real, transformar equipas, negócios e comunidades ao seu redor.
Desejo também reforçar a importância da formação contínua, da preparação estratégica e da resiliência. Que cada mulher que ambiciona liderar entenda que o sucesso exige método, consistência e coragem para tomar decisões assertivas, mesmo em contextos desafiantes.
Por fim, espero deixar uma mensagem de empoderamento: que as mulheres reconheçam o seu potencial, inspirem outras e contribuam para um ambiente empresarial mais inclusivo, profissional e sustentável, onde talento e competência sejam sempre valorizados, independentemente de género.



