“No Corpo, a Memória da Violência”: Exposição da Revista Ngapa transforma arte em grito de reflexão colectiva

Gracieth Issenguele
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A Galeria Plano-B acolheu, na última quinta-feira, 21, o lançamento da quarta edição da Revista cultural Ngapa e Estúdio V, numa noite marcada pela arte contemporânea, reflexão social e resistência cultural. A Revista Chocolate Lifestyle testemunhou a exposição que celebrai lançamento: “No Corpo, a Memória da Violência”, uma mostra que reúne diferentes linguagens artísticas para provocar um olhar profundo sobre as marcas da violência na sociedade angolana.

Com cerca de 15 artistas e obras expostas, a iniciativa com curadoria de Hemak-V, propõe uma viagem sensível pelas dores, memórias e cicatrizes que atravessam corpos físicos, emocionais e sociais. Pintura, fotografia, colagem e instalações unem-se num discurso visual intenso que questiona o impacto da violência histórica, estatal, social e psicológica em Angola.

A artista plástica Anita Sambaje destacou que a relação entre estética e violência surge de forma orgânica no seu processo criativo, uma vez que a sua prática artística nasce precisamente da resposta às agressões verbais e físicas vividas no quotidiano. Para a artista, trabalhar sobre este tema não representa novidade, mas sim continuidade de uma linguagem que já faz parte da sua identidade artística. Anita revelou ainda que participa na revista com uma única obra e confessou a felicidade de integrar, pela primeira vez, um projecto nacional com projecção internacional.

Já o editor da Revista Ngapa, Pedro Cardoso, explicou que esta quarta edição nasceu da necessidade de criar um espaço de reflexão sobre as múltiplas formas de violência presentes no país. Segundo o responsável, a violência em Angola manifesta-se nos corpos, nas identidades e nas relações humanas, tornando-se impossível ignorar as suas consequências na construção social e emocional dos cidadãos.

Pedro Cardoso sublinhou ainda que esta edição assume uma linguagem mais artística e experimental, convidando diversos criadores angolanos a interpretarem o tema de forma abstracta, mas profundamente significativa. O editor acredita que a exposição surge como um convite urgente à juventude para parar, pensar e debater o futuro do país, sobretudo num momento em que Angola celebra 50 anos de independência.

Entre os destaques da exposição está também o trabalho do artista visual Gegé M’bakudi, autor da obra “Cair com as Cadeiras”, inspirada numa conhecida música de kuduro. Através da destruição simbólica de cadeiras — objectos associados à acomodação social — o artista constrói uma narrativa de inconformismo e despertar colectivo, incentivando os jovens a levantarem-se em busca de transformação social.

Gegé M’bakudi explicou que utiliza símbolos profundamente enraizados na memória colectiva angolana, como a catana presente na bandeira nacional, para reforçar a ideia de luta e resistência. O artista participa na exposição com três obras produzidas através de técnicas de pintura, colagem e fotografia.

Mais do que uma simples exposição, “No Corpo, a Memória da Violência” afirma-se como um espaço de questionamento colectivo, onde a arte deixa de ser apenas contemplação estética para assumir o papel de espelho social. Entre memórias dolorosas e discursos de resistência, a quarta edição da Revista Ngapa reforça o poder da criação artística como ferramenta de consciência, diálogo e transformação cultural em Angola.

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