O Espaço Luanda Arte (ELA) acolheu, na passada sexta-feira, 10 de abril, a exposição individual “African Industrial Revolution”, do artista plástico Francisco Vidal, numa mostra que cruza história, identidade e afirmação cultural africana. Com produção da galeria Maia Tanner , a exposição reúne 12 panos criados em 2020, que evocam uma reflexão profunda sobre a capacidade produtiva do continente africano e o seu processo de descolonização estética e simbólica.
Em representação do artista, o director, produtor e curador Dominick Alexander Maia Tanner destacou que os tecidos assumem um papel central enquanto símbolo da essência africana e da sua evolução. “Durante séculos, produzia-se fora aquilo que nos representava. Hoje, temos capacidade local. Este é um acto de resgate e afirmação da nossa identidade”, sublinhou. As obras expostas revelam camadas visuais que remetem à diversidade cultural africana, contrariando estereótipos redutores ainda presentes no olhar externo sobre o continente.

Mais do que um exercício artístico, a exposição posiciona-se como um instrumento educativo. Francisco Vidal propõe, através da sua linguagem visual, uma leitura contemporânea de África enquanto um conjunto de 54 países independentes, com histórias e trajectórias próprias. A sua obra não procura confronto, mas sim consciencialização, promovendo uma narrativa mais ampla e fiel sobre o continente africano.
A arte, neste contexto, surge não apenas como meio de preservação cultural, mas sobretudo como ferramenta de identificação e valorização. Para o curador, antes de preservar, é essencial compreender e reconhecer a identidade. “A preservação é um acto de amor, mas também de investimento”, frisou, apelando ao envolvimento de instituições públicas e privadas no fortalecimento do sector artístico nacional. As obras expostas estão disponíveis para aquisição, reforçando a importância de manter a produção artística dentro do país como um gesto de valorização cultural.

Apesar dos desafios inerentes à produção artística, Dominick Tanner considera que trabalhar com Francisco Vidal é um processo fluido, dada a consistência do percurso académico e criativo do artista, formado em Belas Artes e com uma carreira marcada pela investigação contínua entre Angola e Portugal. Ainda assim, destacou a necessidade de maior inclusão feminina no sector, apontando para um desequilíbrio significativo na representatividade de género nas artes visuais.
Celebrando uma década de actividade, o Espaço Luanda Arte contabiliza já mais de uma centena de exposições, afirmando-se como uma plataforma essencial para o desenvolvimento do ecossistema artístico nacional. Embora reconheça a importância da internacionalização, a galeria reforça o seu foco na valorização local e regional, defendendo que o reconhecimento global será uma consequência natural desse investimento interno.
Em paralelo, Francisco Vidal, através de um texto conceptual produzido no âmbito de uma residência artística, amplia a reflexão sobre a estética pós-colonial, cruzando memórias entre Luanda, Lisboa e Lagos. O artista revisita espaços históricos marcados pela escravatura, evidenciando ausências físicas e simbólicas que ainda ecoam na contemporaneidade. A sua abordagem propõe uma leitura crítica da história, ao mesmo tempo que aponta para a arte como território de construção, diálogo e paz.
Patente até 16 de Junho, a exposição “African Industrial Revolution” afirma-se como um manifesto visual e político, onde o passado e o presente se entrelaçam para projectar um futuro mais consciente, autónomo e culturalmente enraizado.



