A música angolana preparou-se para viver uma noite carregada de emoção e celebração da memória de Nanuto, um dos mais respeitados instrumentistas do país. Temas marcantes como “Luandei”, “Ximbica”, “Mutudi ua ufolo” e “Cabinda Cunene” serão revisitados pela Banda Maravilha e músicos de diferentes gerações, numa homenagem especial realizada no Miami Beach, no âmbito do projecto Semba na Praia.
O tributo foi anunciado por Marito Furtado, que destacou a importância de reunir artistas e admiradores para recordar o legado deixado por Nanuto. Segundo o músico, o saxofonista foi mais do que um colega de profissão, foi um irmão, conselheiro e peça fundamental em momentos decisivos da sua trajectória artística.

Visivelmente consternado pela perda do amigo, Marito revelou ainda que foi Nanuto, conhecido anteriormente por Nandinho, quem o ensinou a tocar bateria e o introduziu nos primeiros grupos musicais. “Poucos sabem, mas ele esteve nos principais momentos da minha carreira”, afirmou.
O encontro musical promete transformar-se numa verdadeira celebração da cultura nacional, reunindo saxofonistas e músicos em geral numa partilha de memórias, sons e emoções dedicadas a uma das figuras mais influentes da música instrumental angolana.
Ao longo da sua carreira, Nanutu construiu uma discografia de referência, marcada por obras como “Marés” (1996), “Kizofado” (2000), “Luandei” (2005), “Bisa” (2009), “Ximbika” (2012) e “Gato Vijú” (2021). O músico destacou-se não apenas pelo virtuosismo técnico, mas também pela disciplina, humildade e profundo compromisso com a preservação da identidade cultural angolana.
O seu percurso artístico mistura-se com a própria história da música moderna de Angola, tendo partilhado palcos com grandes nomes da cultura nacional e defendido, ao longo dos anos, a valorização da velha-guarda artística e da dignidade dos músicos angolanos.
Uma das suas maiores contribuições foi a chamada “angolanização” do saxofone e de outros instrumentos de sopro. Durante a sua última passagem pelo Huambo, no evento “Jazz é Fixe”, realizado no Centro Cultural Manuel Rui, o artista falou sobre o orgulho de ter aproximado o saxofone do público angolano, num contexto em que os instrumentos de sopro raramente tinham protagonismo na música local.
Inspirado por referências africanas como Manu Dibango e Luís Morais, Nanutu conseguiu construir uma carreira internacional sólida e levar a música instrumental angolana a novos palcos e públicos.
O carinho do público era, aliás, uma das maiores motivações do artista. No Huambo, recordou com emoção o afecto recebido dos fãs, que faziam questão de o abordar para fotografias e palavras de admiração. Para o músico, esses momentos confirmavam que o som do seu saxofone tinha ultrapassado fronteiras e conquistado um lugar especial no coração dos angolanos.
Mais do que um instrumentista, Nanutu deixa um legado artístico e cultural incontornável, eternizado na memória colectiva de um país que aprendeu a ouvir o saxofone com sotaque angolano.


