“Desejo que cada mulher que passe pelas minhas mãos deve lembrar-se de que é valiosa”: Ana Karina Machado e o percurso no tratamento do cabelo

Gracieth Issenguele
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Entre histórias de superação, fé e legado, Ana Karina Machado revela-se uma força inspiradora no universo da beleza em Angola. Natural de Luanda, Ingombotas, licenciada em Contabilidade e Auditoria e fundadora da Welfare Capilar desde 2016, a empresária construiu o seu percurso como cabeleireira desde 2013, transformando desafios pessoais numa missão de impacto na vida de outras mulheres. Marcada por uma adolescência difícil, encontrou na avó paterna, Maria Antónia Rodrigues, uma referência no sector em Benguela nos anos 2000, a base de um legado que hoje honra com dedicação, propósito e sensibilidade. Nesta entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, partilha a sua trajectória, visão e o poder transformador da beleza na autoestima feminina.

RC: Ana Karina Machado, como descreve a influência da sua infância e adolescência na construção da mulher e profissional que é hoje?

AM: Eu descrevo o impacto que tive como: resiliência, cabeça erguida e coragem, diante de muitos baixos emocionais e ondas contrárias durante a minha jornada(infância e adolescência) até o hoje, tornei-me numa mulher forte, de fé e confiante no que eu sou capaz de gerar como profissional, porque vai muito mais além do saber fazer, é um legado que levarei para o impacto de vidas, e deixando marcas de superação, digo isso porque eu tenho sido alvo de lidar com algumas mulheres que sem querer criam fortes laços comigo e trocamos muitas experiências de vida, e agradeço a Deus que me permitiu obter sabedoria, saúde e força para chegar aonde cheguei, e ser uma boa referência no meio destas mulheres.

RC: Falou de uma adolescência marcada por desafios, rejeições e superações. De que forma essas experiências moldaram a sua força interior e visão de vida?

AM: Vejo a vida de uma forma diferente do tipo: ninguém me deve nada a não ser eu mesma e se eu me permitir fracassar serei inútil para alcançar algo nesta vida, então fui obrigada a quebrar o sentimento de vítima e culpa para seguir sem mágoas e ressentimentos. Ter a minha própria dependência financeira sempre foi o meu foco e algo muito importante nisto tudo foi o respirar fundo e crer que o amanhã será melhor.

Em tempos de tempestade eu bem sei que os de fora têm a melhor visibilidade do que nós, que estamos encurralados na tempestade, e é bem verdade.

RC: A sua avó, Maria Antónia Rodrigues, surge como uma figura central no seu percurso. Que ensinamentos mais marcantes herdou dela, tanto a nível pessoal como profissional?

AM: Que pergunta incrível e terei tanto gosto em descrever, com boas lembranças agora passando na minha mente e um coração cheio de saudades. A nível pessoal herdei: a bondade e generosidade, me revejo sempre nela quando faço actos de caridade a mulheres que não têm o poder financeiro para cuidar dos seus cabelos, era uma prática essencial da minha avó, ajudar pessoas neste quesito e não só.

A nível profissional herdei o perfeccionismo, agilidade na área em questão de tempo de tratamento de cada cliente, e a criatividade em gestão de serviços específicos para o engajamento de clientes.

RC: Crescer num ambiente ligado à beleza influenciou naturalmente a sua escolha de carreira ou foi uma decisão consciente tomada mais tarde?

AM: Sim digo que foram doces influências. Desde cedo sempre determinei que teria o meu próprio espaço e seguir este legado como cabeleireira, independentemente de alguma formação que eu fora a fazer a nível académico, porque fui marcada para esta linda jornada e carreira, está no meu DNA, algo inevitável.

RC: Recorda-se do momento em que percebeu que o cabeleireiro não era apenas uma habilidade, mas uma verdadeira vocação?

AM: Me lembro sim, desde o momento em que eu trabalhava no espaço da minha avó, e vendo mulheres sentadas na fila de espera para tratarem os seus cabelos apenas comigo e elogiando o resultado com muita satisfação e alegria.

Me lembro também de ver mulheres a chorarem de alegria pelo resultado de tratamentos e olhando para o espelho e dizendo: “nunca vi o meu cabelo tão lindo deste jeito, obrigada Ana Deus te abençoe.”

Como algumas que podem ficar um mês sem arranjarem o cabelo, e me aguardando para apenas tratar comigo, eu acho um absurdo, mas, é real.

RC: Desde cedo começou a lidar com clientes num salão de referência. Como foi assumir essa responsabilidade ainda jovem e conquistar a confiança de tantas mulheres?

AM: É a graça de Deus e o profissionalismo, sim o saber fazer bem, e mostrar resultados satisfatórios foi sempre a minha prioridade em cada cliente e que foi um portal para gerar outras clientes, através de recomendações ou por ouvir dizer.

RC: Fundadora da Welfare Capilar desde 2016, que propósito esteve na base da criação deste projecto e que impacto pretende gerar na vida das suas clientes?

AM: Este projecto foi criado para dar sequência de um legado incrível, e a uma história de superação. Quanto ao impacto Anseio que as minhas clientes estejam sempre satisfeitas com os meus serviços e orientações capilares.

RC: Defende que “cada mão tem uma graça divina”. Como interpreta essa ideia no contexto do seu trabalho e da relação com as clientes?

AM: Algo divino não se explica, mas posso dizer que é a minha agilidade e paciência lidando com mulheres, imaginem. Quanto a relação com clientes é incrível, algumas vêm a princípio com muita desconfiança que é o normal e acabam ficando e elogiando depois do resultado e outras antes mesmo de serem tocadas já acreditam que sairão transformadas, elas veem com uma certeza forte em que estarão em boas mãos e me passam boas vibrações.

RC: Para si, cuidar do cabelo vai muito além da estética. De que forma acredita que a beleza pode transformar a autoestima e até as relações pessoais das mulheres?

AM: Do ponto de vista profissional, entendo que a estética e a autoestima estão profundamente ligadas. O cabelo é um dos primeiros atributos que notamos em nós e nos outros. Quando uma cliente sai satisfeita com o seu visual, há uma libertação de segurança e bem-estar que influencia directamente a sua comunicação não-verbal, a sua produtividade e até a qualidade das suas interações sociais. Portanto, cuidar do cabelo é, na prática, cuidar da pessoa como um todo e isso reflecte-se positivamente em todas as esferas da sua vida.

RC: Ao longo da sua trajectória, houve histórias de clientes que a tenham marcado profundamente? Pode partilhar algum exemplo que simbolize essa transformação?

AM: Sim, alguém que decidiu ser crespa a todo o custo por medo de ficar careca por falta de conhecimento do uso do desfriso e de um profissional em altura para acompanhá-la e que já tinha um mau historial quanto a lugares e espaços que ela frequentou antes de ter um encontro comigo por recomendação de alguém próximo.

Lembro-me eu ela toda desconfiada, inquieta e preocupada com o processo e o resultado, neste dia não houve conversa entre nós, por conta dela, até tentei, mas sem resultados, no final do serviço eu vi no seu rosto satisfação e ao mesmo tempo vergonha porque não foi tão atenciosa e humilde quanto a minha recepção em sua casa.

Ao decorrer da segunda chamada para tratarmos o seu cabelo em sua casa, vi ela mais solta e diferente e logo o tão esperado, depois do resultado ela disse: é a primeira vez que alguém me estica o cabelo e não me puxa e não sinto o peso de mãos na minha cabeça e por outra, o meu brushing ficou 14 dias intacto, olha estou super feliz porque encontrei alguém profissional e tenho de reconhecer isso, Ana muito obrigada (risos)!

RC: Sendo também licenciada em Contabilidade e Auditoria, como equilibra o lado empresarial com a paixão pela área da beleza?

AM: Não estou exercendo esta actividade conforme a minha formação acadêmica por isso o tempo agendado e dedicação é direcionado ao cabeleireiro com base em agendas com as minhas clientes.

RC: Olhando para o futuro, que legado deseja construir e de que forma pretende honrar — e talvez superar — o caminho iniciado pela sua avó?

AM: O legado que desejo construir é simples: que cada mulher que passe pelas minhas mãos se lembre para sempre de que é valiosa. A minha avó Maria Antónia Rodrigues, plantou uma semente em mim, o fazer com amor …

Honrá-la é regar essa semente todos os dias, com cada cliente atendida, com cada sorriso devolvido. Superá-la não significa fazer maior do que ela fez, mas sim levar o que ela me ensinou a lugares onde ela nunca chegou e garantir que o nome dela viva em cada história de transformação através de mim.

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