No âmbito do março Mulher, a Revista Chocolate Lifestyle conversou, em exclusivo, com Dina Patrícia F. Dias Dos Santos, empreendedora angolana nascida em Luanda e fundadora da SAVRUC Beauty Angola. Movida por disciplina, formação contínua e propósito, Dina construiu um percurso que cruza Angola, Dubai e outros mercados internacionais, sempre com a ambição de unir conhecimento académico à prática empresarial.

Licenciada em Direito, com um BTEC em Business concluído no Dubai e um MBA recentemente finalizado, a empresária representa uma nova geração de líderes femininas que encaram a beleza como ferramenta de empoderamento e os negócios como plataforma de impacto social. Nesta entrevista, fala sobre estratégia, ética, internacionalização e o legado que deseja deixar às mulheres africanas.
RC: Sendo licenciada em Direito e tendo complementado a sua formação com um BTEC em Business no Dubai e um MBA, de que forma essa combinação académica influencia as suas decisões estratégicas enquanto CEO?
DS: A minha formação permitiu-me desenvolver uma visão bastante completa do mundo empresarial. O Direito ensinou-me a pensar de forma estruturada, a compreender riscos e a tomar decisões com consciência jurídica e estratégica. Já o BTEC em Business e o MBA deram-me ferramentas práticas de gestão, marketing e desenvolvimento de negócios. Na prática, esta combinação permite-me equilibrar criatividade com disciplina estratégica. Consigo analisar oportunidades de mercado, mas também antecipar riscos legais, contratuais e operacionais, o que é essencial para construir uma empresa sustentável.
RC: Acredita que a sua formação jurídica oferece-lhe uma vantagem competitiva no mundo empresarial angolano? Em que aspectos concretos?
DS: Sem dúvida. Em Angola, muitas empresas enfrentam desafios relacionados com enquadramento legal, contratos, estrutura societária e compliance. Ter uma base jurídica permite-me estruturar melhor a empresa, proteger a marca, negociar contratos de forma mais segura e tomar decisões estratégicas com maior consciência regulatória. Isso evita muitos erros comuns no início de um negócio e dá mais segurança aos parceiros e investidores.
RC: Fundar uma marca de maquilhagem cruelty-free em Angola representa também uma posição ética. Como avalia a receptividade do mercado nacional a este conceito?
DS: O conceito cruelty-free ainda está em crescimento em Angola, mas vejo uma evolução muito positiva. As novas gerações estão cada vez mais informadas e preocupadas com consumo consciente. Quando criámos a SAVRUC Beauty, não foi apenas para vender maquilhagem, mas para representar valores. Queríamos mostrar que é possível criar produtos de beleza de qualidade sem recorrer a testes em animais. Hoje percebemos que o mercado começa a valorizar essa transparência e responsabilidade.

RC: Quais foram os momentos mais desafiantes na construção da SAVRUC Beauty Angola e como conseguiu transformar obstáculos em crescimento estratégico?
DS: Construir uma marca em Angola exige muita resiliência. Tivemos desafios relacionados com logística, produção internacional, investimento inicial e construção de confiança no mercado. No entanto, cada obstáculo acabou por se transformar numa oportunidade de aprendizagem. Tivemos que desenvolver estratégias criativas de marketing, apostar na construção de comunidade e reforçar a identidade da marca. Essas dificuldades acabaram por fortalecer a SAVRUC e torná-la mais preparada para crescer.
RC: Como define o seu estilo de liderança: mais analítico, mais visionário ou mais emocional?
DS: Diria que é uma combinação dos três. Sou analítica quando preciso tomar decisões estratégicas, visionária quando penso no futuro da marca e emocional no sentido de compreender as pessoas com quem trabalho. Acredito muito numa liderança humana. Uma empresa cresce quando as pessoas que fazem parte dela também crescem.
RC: Num mercado cada vez mais competitivo, qual é o diferencial estratégico que posiciona a SAVRUC Beauty como uma marca de referência?
DS: O nosso diferencial está na identidade da marca. A SAVRUC não é apenas maquilhagem, é uma narrativa de autoestima, identidade e modernidade africana. Apostamos em produtos inovadores, numa estética muito própria e numa ligação forte com a nossa comunidade. Também procuramos construir uma marca angolana com visão internacional.

RC: A SAVRUC nasceu com o propósito de elevar a autoestima. Na sua visão, qual é o verdadeiro papel da beleza na construção da identidade feminina angolana?
DS: Para mim, a beleza não é apenas estética. É uma forma de expressão, de confiança e de afirmação pessoal. A mulher angolana é extremamente forte, resiliente e criativa. A beleza pode ser uma ferramenta de empoderamento, permitindo que cada mulher se sinta confortável e confiante na sua própria identidade.
RC: Considera que a indústria da beleza em Angola ainda precisa redefinir padrões? Que mudança gostaria de liderar nesse sector?
DS: Sim, acredito que ainda existe muito espaço para evolução. Precisamos de mais diversidade, mais inovação e mais marcas locais fortes. Gostaria de contribuir para um mercado onde as marcas angolanas possam competir internacionalmente, mantendo a sua identidade cultural. Também acredito muito no desenvolvimento de talento local dentro da indústria da beleza.
RC: De que forma a sua marca contribui para o empoderamento económico e social de outras mulheres?
DS: A SAVRUC tem um compromisso real com o empoderamento feminino. A maior parte das pessoas que trabalham connosco são mulheres, e procuramos criar oportunidades de crescimento profissional dentro da empresa. Além disso, trabalhamos com influenciadoras, criadoras de conteúdo e profissionais da área da beleza, ajudando a criar um ecossistema de oportunidades dentro do sector.
RC: Demonstra interesse em comércio internacional e expansão para África e Ásia. Que mercados considera prioritários e por quê?
DS: Vejo grande potencial em mercados africanos emergentes, como Angola, Moçambique e África do Sul, onde existe uma forte cultura de beleza e um público jovem muito conectado às tendências globais. Também tenho interesse em mercados asiáticos, especialmente pela capacidade de inovação e desenvolvimento na indústria cosmética. A internacionalização é uma ambição natural para qualquer marca que queira crescer.
RC: Que estratégias está a desenhar para internacionalizar a SAVRUC Beauty mantendo a sua identidade angolana?
DS: A estratégia passa por construir uma marca global com raízes africanas. Queremos que a SAVRUC seja reconhecida internacionalmente, mas sem perder a nossa essência. Isso significa manter a nossa estética, história e identidade cultural enquanto adaptamos estratégias comerciais para diferentes mercados.
RC: Se tivesse de aconselhar jovens mulheres que desejam empreender, qual seria o primeiro passo estratégico que recomendaria?
DS: O primeiro passo é acreditar na própria visão. Muitas vezes as mulheres duvidam mais de si mesmas do que deveriam. Depois disso, é essencial estudar o mercado, preparar um plano claro e começar, mesmo que com poucos recursos. Muitas grandes empresas começaram com ideias simples e muita determinação.
RC: Daqui a dez anos, como imagina o nome Dina Patrícia F. Dias Dos Santos no panorama empresarial africano?
DS: Espero que seja associado à construção de marcas fortes e inovadoras vindas de África. Mais do que sucesso pessoal, gostaria que o meu percurso ajudasse a inspirar outras jovens africanas a acreditar que podem construir empresas, criar impacto e competir globalmente.





