Formada em Medicina em Madrid e especializada em Medicina Interna em Barcelona, Patrícia Martins construiu um percurso marcado pela excelência académica e por uma visão contemporânea da saúde. Ao longo da sua trajectória, foi a desenvolver uma abordagem que integra ciência, prevenção e bem-estar, procurando aproximar a medicina convencional de um olhar mais integrativo e centrado no paciente.
Dessa visão nasceu a GHABITS, marca de suplementação focada no bem-estar mental e na longevidade, criada com o propósito de incentivar hábitos mais conscientes e promover o equilíbrio físico e emocional por meio de soluções baseadas em evidência científica. Já em Angola, a médica decidiu dar mais um passo no seu compromisso com a saúde preventiva ao fundar a Muenhu Clinic, um projecto que aposta numa medicina mais personalizada, com enfoque na saúde metabólica, hormonal e na saúde da mulher.

Entre a prática clínica e o empreendedorismo em saúde, Patrícia Martins dedica-se a temas como longevidade, equilíbrio mental, performance e lifestyle consciente. Acredita que a medicina moderna deve ir além do tratamento da doença, integrando ciência, hábitos e prevenção para melhorar a qualidade de vida a longo prazo. Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, e no âmbito das celebrações do Mês da Mulher, a especialista em Medicina Interna partilha a sua visão sobre saúde, inovação e os desafios de construir um futuro mais consciente e equilibrado.
RC: Formou-se em Medicina em Madrid e especializou-se em Barcelona. Que aprendizagens dessas experiências internacionais mais influenciaram a sua forma de exercer medicina hoje?
PM: Estudar e formar-me em Espanha foi profundamente transformador. Em Madrid tive uma formação médica muito sólida e exigente, com uma grande valorização do raciocínio clínico e da disciplina científica. Em Barcelona, durante a especialização, aprofundei uma visão mais moderna da medicina, onde o paciente é visto como um todo — e não apenas como um conjunto de sintomas. Essas experiências ensinaram-me que a boa medicina exige duas coisas fundamentais: rigor científico e a capacidade de escutar também aquilo que muitas vezes não é dito. Muitas vezes os sinais mais importantes estão no contexto de vida, nas emoções ou nas circunstâncias que rodeiam o paciente. Hoje procuro exercer medicina com essa mesma filosofia: baseada na evidência científica, mas profundamente humana, onde compreender o contexto de vida da pessoa é tão importante quanto interpretar exames ou estabelecer diagnósticos. No fundo, é uma prática alinhada com a própria definição de saúde da World Health Organization: não apenas a ausência de doença, mas um estado de bem-estar biológico, psicológico e social.
RC: Ao longo do seu percurso, tem defendido uma visão de saúde que integra ciência, prevenção e bem-estar. Como define, na prática, esta abordagem mais integrativa e centrada no paciente?
PM: Durante muito tempo a medicina foi essencialmente reactiva — tratávamos a doença quando ela já estava instalada. Hoje sabemos que grande parte das doenças crónicas podem ser prevenidas ou atrasadas quando atuamos antes. Uma abordagem integrativa significa exatamente isso: combinar medicina baseada em evidência com estratégias de prevenção, olhando para factores como sono, nutrição, saúde mental, equilíbrio hormonal e estilo de vida. Não se trata de substituir a medicina tradicional, mas de ampliá-la. O objetivo é ajudar as pessoas não apenas a tratar doenças, mas a viver melhor, com mais energia, equilíbrio e longevidade saudável.
RC: O que a motivou a criar a GHABITS, uma marca de suplementação focada no bem-estar mental e na longevidade?
PM: A ideia da GHABITS nasceu, em parte, de uma necessidade muito pessoal e também da minha prática clínica. Durante o período da pandemia de COVID-19, muitos profissionais de saúde — eu incluída — trabalhámos sob níveis de pressão e exigência emocional extremamente elevados. Burnout, stress crónico e fadiga tornaram-se quase parte da realidade diária. Ao mesmo tempo, na prática clínica comecei a observar um padrão muito claro: cada vez mais pessoas sofrem de stress crónico, ansiedade, fadiga mental e dificuldade em manter foco e equilíbrio emocional. Muitas vezes não se trata de uma doença clássica, mas de um organismo permanentemente em estado de sobrecarga. Percebi então que existia espaço para soluções que unissem ciência, qualidade e educação em saúde. A GHABITS nasceu precisamente com essa missão: ajudar as pessoas a desenvolver hábitos mais conscientes e apoiar o equilíbrio mental e metabólico através de suplementação baseada em evidência científica. Mais do que um produto, quis criar uma marca que incentivasse uma relação mais informada e responsável com a saúde.
RC: Num contexto em que o tema da suplementação tem ganho destaque, qual deve ser o papel da ciência e da evidência médica na orientação do público?
PM: A ciência deve ser sempre o ponto de partida. A suplementação pode ser extremamente útil quando utilizada de forma adequada, mas também existe muita desinformação no mercado. Por isso é fundamental que as recomendações sejam feitas com base em evidência científica, qualidade das matérias-primas e transparência na formulação. O meu papel, enquanto médica, é ajudar a traduzir a ciência para o público de forma clara e responsável, para que as pessoas possam tomar decisões informadas sobre a sua saúde.
RC: Após a sua experiência internacional, decidiu apostar em Angola com a criação da Muenhu Clinic. Que lacunas no sistema de saúde identificou que a levaram a desenvolver este projecto?
PM: Quando regressei a Angola percebi que existia uma lacuna importante entre a medicina curativa tradicional e uma abordagem mais preventiva e personalizada. A Muenhu Clinic nasceu com a ambição de criar um espaço onde a medicina fosse praticada com tempo, profundidade e visão a longo prazo. Um lugar onde o paciente é acompanhado de forma contínua e onde a prevenção, a saúde metabólica e o equilíbrio hormonal têm um papel central. Mais do que tratar doença, queremos antecipá-la e evitá-la, sempre que possível.
RC: A clínica tem um enfoque particular na saúde metabólica e hormonal. Por que razão estas áreas são hoje consideradas centrais para a qualidade de vida?
PM: Porque são verdadeiramente a base da saúde. Hoje sabemos que muitos problemas aparentemente distintos, como fadiga persistente, aumento de peso, ansiedade, infertilidade, diabetes ou doenças cardiovasculares, têm frequentemente uma raiz comum no metabolismo e no equilíbrio hormonal. Quando cuidamos destes sistemas de forma precoce, conseguimos não só melhorar a longevidade, mas também a energia, a clareza mental e a qualidade de vida. Mais importante ainda, conseguimos adiar ou até prevenir o aparecimento de muitas doenças crónicas. A medicina moderna está cada vez mais focada precisamente nisso: não apenas tratar a doença quando surge, mas proteger o equilíbrio interno do organismo para que a doença tenha menos espaço para se desenvolver.
RC: A saúde da mulher também é uma das prioridades do seu trabalho. Que desafios ainda persistem quando falamos de acompanhamento médico feminino em Angola?
PM: A meu ver ainda existe um caminho importante a percorrer começando pela paciente (a mulher). Muitas mulheres continuam a colocar as suas necessidades em último lugar, entre a família, o trabalho e as responsabilidades do dia-a-dia. Além disso, temas como saúde hormonal, síndrome pré-menstrual, menopausa ou saúde mental feminina ainda são pouco discutidos de forma aberta. Acredito que precisamos de mais educação, acesso a cuidados especializados e espaços onde as mulheres se sintam realmente escutadas.
RC: O conceito de longevidade tem sido cada vez mais discutido. O que significa, na sua perspectiva, viver mais anos com qualidade de vida?
PM: Longevidade não significa apenas viver mais anos. Significa chegar aos 65, 70 ou 80 anos com autonomia, energia mental, capacidade física e equilíbrio emocional. O verdadeiro objetivo da medicina moderna não é apenas prolongar a vida, mas proteger a qualidade dessa vida. E isso constrói-se diariamente através de escolhas consistentes: alimentação, movimento, sono, gestão do stress e saúde metabólica.
RC: Entre a prática clínica e o empreendedorismo em saúde, como consegue equilibrar o rigor científico com a inovação?
PM: Para mim essas duas dimensões não são opostas, são complementares. O rigor científico garante que aquilo que fazemos tem fundamento e segurança. A inovação permite-nos encontrar novas formas de aplicar esse conhecimento e criar soluções que respondam melhor às necessidades das pessoas. Procuro manter sempre uma base sólida de estudo e atualização, mas também uma mentalidade aberta para pensar a saúde de forma mais moderna e multidisciplinar.
RC: Fala frequentemente sobre lifestyle consciente e performance. Que hábitos simples podem, de facto, transformar a saúde a longo prazo?
PM: Muitas vezes pensamos que mudanças radicais são necessárias, mas, na realidade, são os hábitos consistentes que fazem verdadeiramente a diferença. Dormir bem, manter actividade física regular, criar momentos de pausa ao longo do dia, alimentar-se de forma equilibrada e cuidar da saúde mental são pilares fundamentais de uma vida saudável. No entanto, frequentemente implementamos estes hábitos esquecendo precisamente a dimensão da saúde mental. Ainda existe a ideia de que saúde mental diz respeito apenas a pessoas com doenças psiquiátricas e isto esta longe da realidade. A saúde mental faz parte do equilíbrio global do organismo e influencia diretamente a nossa energia, humor, capacidade de concentração, qualidade do sono e até a saúde física. No fundo, são as pequenas rotinas diárias, repetidas de forma consistente ao longo dos anos, que têm um impacto muito mais profundo na nossa saúde do que intervenções pontuais ou mudanças drásticas.
RC: Março é o mês dedicado à mulher. Que mensagem gostaria de deixar às mulheres sobre a importância de cuidarem da sua saúde física e mental?
PM: Durante muito tempo ensinou-se às mulheres que cuidar de si próprias era um luxo. Na realidade, é uma necessidade. A saúde física e mental é aquilo que sustenta tudo o resto, a família, o trabalho, os sonhos e os projectos. Por isso, a minha mensagem é simples: cuidem de si. Cuidar de si própria não é egoísmo. É responsabilidade e também um acto profundo de amor-próprio.
RC: Sendo também uma mulher que lidera projectos na área da saúde, que conselho daria a outras mulheres que desejam empreender?
PM: Diria duas coisas. Primeiro: invistam no conhecimento. A competência é a base de qualquer liderança sólida. Segundo: não tenham medo de construir caminhos diferentes. O empreendedorismo exige coragem, resiliência e visão a longo prazo, mas também oferece a possibilidade extraordinária de transformar ideias em impacto real na vida das pessoas.

