Da resiliência ao sucesso: Como Michelle Ramos transformou desafios em negócios de impacto em Luanda

Gracieth Issenguele
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Michelle Nair de Sousa Ramos, de 44 anos, é uma empreendedora angolana cuja trajetória profissional é profundamente marcada pela capacidade de se reinventar, transformar desafios em oportunidades e construir negócios com paixão e propósito. Formada em Fisioterapia, abriu a sua primeira empresa em 2014 — a creche “Nicole’s Place” — e, em 2017, expandiu a sua veia empresarial ao criar o estúdio “Michelle Carvalho Fotografia”. Contudo, com o impacto da pandemia de Covid-19 em 2020 e o encerramento forçado de ambos os espaços, Michelle viveu um dos momentos mais difíceis da sua vida ao declarar falência, ponto de viragem que se tornaria o verdadeiro catalisador da sua maior reconstrução pessoal e financeira.

Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, a empresária revela como em 2021 encontrou nas plantas uma nova forma de renascer, criando a próspera empresa “Jardim By Michelle”, reconhecida hoje no mercado de decoração em Luanda. Galardoada em 2017 com o Prémio Angola 35 Graus na categoria de Economia e Negócios, Michelle partilha detalhadamente como a perseverança, o foco e a lealdade ao propósito foram determinantes para superar as crises e voltar a triunfar no ecossistema empresarial angolano.

A determinação de Michelle Ramos reflete o espírito resiliente das mulheres que lideram o ecossistema de negócios no país, tal como abordámos ao destacar como a empresária Diandra Vaal Neto Simões partilhou os desafios e sacrifícios na jornada dos empreendedores, provando que a persistência e a visão de futuro são os verdadeiros pilares do sucesso.

RC.: Formada em Fisioterapia, o que a levou a deixar a área da saúde para abraçar o empreendedorismo?

MR.: A Fisioterapia foi uma área que escolhi e que me ensinou muito sobre pessoas, responsabilidade, cuidado e disciplina. Trabalhei durante 4 anos na área e guardo essa experiência com muito carinho.

 Mas sempre tive dentro de mim uma vontade muito forte de criar, de construir algo meu e de ter mais liberdade para concretizar ideias. Em determinado momento, percebi que o empreendedorismo me permitia explorar essa capacidade criativa e ao mesmo tempo, criar oportunidades para outras pessoas.

Não foi propriamente uma decisão de abandonar a Fisioterapia, mas de perceber que existia uma outra versão profissional de mim que também precisava de espaço para crescer.

RC.:  A abertura da Nicole’s Place, em 2014, marcou a sua entrada nos negócios. Que aprendizagens dessa primeira experiência ainda hoje aplica?

MR.: A minha primeira experiência empresarial ensinou-me que ter uma boa ideia é apenas o começo. É preciso aprender a gerir pessoas, dinheiro, clientes, fornecedores, imprevistos e, acima de tudo, responsabilidades.

Aprendi também que o *empreendedorismo exige muito mais disciplina do que imaginamos*. Hoje, quando olho para os meus negócios, percebo que muitas das bases que utilizo foram construídas precisamente nessa primeira experiência. E talvez a maior aprendizagem tenha sido esta: não existe negócio sem desafios, mas cada desafio pode ensinar-nos a gerir melhor o próximo passo.

RC.: Em 2017, aventurou-se na fotografia e chegou a formar-se em Portugal. O que a motivou a investir numa área tão diferente da sua formação inicial?

MR.: Sempre fui uma pessoa muito curiosa e criativa. A fotografia despertava em mim uma paixão muito grande, principalmente pela possibilidade de contar histórias e eternizar momentos através de uma imagem.

Decidi então investir seriamente nessa paixão e fui fazer formação em Portugal. Para mim, estudar uma área antes de transformá-la num negócio era também uma forma de respeitar aquela profissão.

Acredito que não precisamos de ficar presos à nossa formação inicial. Podemos aprender, experimentar e começar de novo quantas vezes forem necessárias. A nossa formação é uma parte da nossa história, não precisa de ser o limite daquilo que podemos construir.

RC.:  A pandemia obrigou-a a encerrar dois negócios e, posteriormente, a declarar falência. O que esse período lhe ensinou sobre resiliência e gestão?

MR.: Foi provavelmente um dos períodos mais difíceis da minha vida profissional. Eu tinha negócios, tinha pessoas a depender deles e tinha compromissos financeiros que continuavam a existir mesmo quando as receitas deixaram de existir. Acabei por encerrar os dois negócios e enfrentar uma situação financeira muito difícil, que culminou na falência.

Foi doloroso, mas também foi uma escola. Aprendi que resiliência não significa fingir que está tudo bem. Às vezes, ser resiliente é reconhecer que alguma coisa não está a funcionar, aceitar a perda, aprender com ela e ter coragem para começar novamente.

Também aprendi a importância de uma gestão financeira muito mais cuidadosa, de controlar custos, de criar reservas e de não confundir crescimento com sustentabilidade.

Hoje, cada decisão empresarial que tomo carrega um pouco dessa aprendizagem.

RC.: Em 2021, encontrou nas plantas uma forma de se reconstruir e criou o Jardim By Michelle. Como transformou um passatempo numa oportunidade empresarial?

MR.: As plantas chegaram à minha vida inicialmente como uma forma de ocupar a cabeça e encontrar algum equilíbrio num período particularmente difícil.

Comecei por cuidar delas por prazer, mas rapidamente percebi que existia uma necessidade no mercado. Comecei a trabalhar com plantas em vasos e, posteriormente, a prestar consultoria a empresas de decoração e a pessoas que queriam trazer mais verde para dentro das suas casas.

Foi assim que percebi novamente uma coisa que hoje considero muito importante: às vezes, uma oportunidade empresarial nasce de algo que fazemos simplesmente porque nos faz bem.

O Jardim By Michelle foi também um processo de reconstrução pessoal. Antes de ser um negócio, foi uma forma de voltar a acreditar em mim.

RC.: Os seus diferentes projectos têm em comum uma forte relação com o cliente. O que significa, para si, proporcionar uma experiência diferenciada?

MR.: Para mim, vender nunca foi apenas entregar um produto.

É perceber quem está do outro lado, ouvir, cuidar dos detalhes e fazer com que aquela pessoa sinta que a sua presença é importante.

Uma experiência diferenciada não precisa necessariamente de ser cara ou sofisticada. Muitas vezes está nos pequenos detalhes: na forma como recebemos o cliente, na apresentação do produto, na qualidade, na atenção e na consistência.

Eu quero que as pessoas não se lembrem apenas daquilo que compraram, mas de como se sentiram quando estiveram em contacto com uma marca minha.

RC.: Os Caseirinhos by Michelle nasceram de uma paixão e conquistaram rapidamente o mercado. Em que momento percebeu que a marca poderia tornar-se num negócio de maior dimensão?

MR.: Os Caseirinhos começaram de uma forma muito simples, dentro da minha cozinha de casa. Fui crescendo aos poucos, comprando equipamentos à medida que o negócio permitia e reinvestindo praticamente tudo aquilo que conseguia.

A percepção de que poderia existir algo maior aconteceu quando comecei a perceber a reação das pessoas aos nossos produtos. A procura crescia, os clientes voltavam e começámos a criar uma comunidade à volta da marca.

Foi aí que percebi que não estávamos apenas a vender bolos. Estávamos a construir uma marca.

E acredito que uma marca cresce quando consegue transformar um produto numa experiência e criar uma relação de confiança com o cliente.

RC.: Foi pioneira na apresentação do conceito de bolos vendidos à fatia no formato que levou ao mercado. O que representa para si ver outros empreendedores a adoptar modelos semelhantes?

 MR.: Eu vejo isso como uma confirmação de que existe espaço para inovação no nosso mercado.

Quando começámos a trabalhar este conceito, existia uma forma muito específica de apresentar e vender bolos. Nós procurámos criar uma experiência diferente, tornando possível ao cliente experimentar diferentes sabores sem necessariamente comprar um bolo inteiro.

Ver outras pessoas a explorar conceitos semelhantes não me incomoda. Pelo contrário, mostra-me que uma ideia pode contribuir para movimentar um mercado.

Eu acredito que cada empreendedor deve encontrar a sua identidade, a sua qualidade e a sua forma de fazer as coisas.

A venda de bolos em fatias existe há muitos anos nas feiras no Brasil e eu pensei: porque não trazer este conceito para Angola? E fiz a formação, reunindo todo o material necessário para emplementar cá e assim coloquei em prática a minha ideia.

Para mim, inovação não é apenas ser o primeiro. É continuar a evoluir depois de começar.

RC.:  Actualmente, prepara uma estrutura própria com cozinha profissional e capacidade de produção em maior escala. Que novos desafios e oportunidades esta expansão representa?

MR.: Esta expansão representa uma nova fase para os Caseirinhos by Michelle.

Durante muito tempo, crescemos de forma muito orgânica, quase passo a passo. Agora estamos a preparar uma estrutura que nos permita aumentar a capacidade de produção sem comprometer aquilo que considero essencial: qualidade, sabor, apresentação e consistência.

O desafio será crescer sem perder a nossa essência.

Ao mesmo tempo, esta estrutura abre portas para novos produtos, novos pontos de venda, parcerias e uma capacidade de atendimento muito maior.

É um crescimento que me entusiasma, mas que também encaro com muita responsabilidade, porque quanto maior uma marca se torna, maior é a responsabilidade de manter aquilo que fez os clientes acreditarem nela.

RC.: A formação das suas equipas é uma das suas prioridades. Por que considera importante investir nas pessoas para construir marcas sustentáveis?

MR.: Porque uma marca não é construída apenas por quem está no topo. É construída por todas as pessoas que fazem parte dela.

Podemos ter um excelente produto, uma loja bonita e uma boa estratégia, mas se a equipa não compreender a visão e os valores da empresa, dificilmente conseguiremos entregar uma experiência consistente.

Para mim, formar uma equipa é ensinar, acompanhar, corrigir, ouvir e também dar oportunidade para que as pessoas cresçam.

Quero construir equipas que entendam que não estão simplesmente a cumprir uma função. Estão a participar na construção de algo.

E acredito que empresas sustentáveis são feitas de pessoas preparadas, valorizadas e alinhadas com a cultura da marca.

RC.: Como mãe de dois filhos e empreendedora, de que forma concilia a vida familiar com as exigências de gerir diferentes projectos?

MR.: Não vou dizer que é fácil, porque não é.

Existem dias em que sinto que preciso de estar em vários lugares ao mesmo tempo. Ser mãe exige presença, atenção e disponibilidade, enquanto empreender também exige decisões constantes e muita responsabilidade.

Aprendi, sobretudo, a organizar prioridades e a aceitar que nem todos os dias serão equilibrados.

Os meus filhos também são uma grande motivação para mim. Muitas das coisas que construo têm a ver com o desejo de lhes mostrar que podemos cair, recomeçar e continuar a construir a nossa história.

Quero que eles vejam na mãe não uma pessoa que teve tudo fácil, mas alguém que teve coragem para recomeçar sempre que foi necessário.

“A Michelle não é apenas a mulher que criou uma marca de bolos. É uma mulher que aprendeu a reconstruir depois de perder.”

RC.: Enquanto mulher empreendedora, que lugar ocupa o lifestyle angolano na forma como constrói as suas marcas, escolhe os produtos e cria experiências para o consumidor em Luanda?

MR.: Ocupa um lugar muito importante.

Eu acredito que uma marca precisa de compreender profundamente o lugar onde está inserida. O consumidor angolano, particularmente em Luanda, é exigente, atento às tendências, gosta de novidades, mas também valoriza aquilo que lhe é familiar e genuíno.

Procuro, por isso, encontrar um equilíbrio entre aquilo que vejo acontecer no mundo e aquilo que faz sentido para a nossa realidade.

Gosto de trazer referências, conceitos e experiências diferentes, mas adaptá-los à nossa cultura, ao nosso consumidor e à forma como vivemos.

Para mim, construir marcas em Angola é também uma forma de mostrar que podemos criar experiências contemporâneas, bonitas e sofisticadas sem perder a nossa identidade.

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