Com mais de uma década de experiência clínica e académica, Engrácia Luyeye afirma-se como uma das vozes consistentes na promoção da saúde mental em Angola. Especialista em Psicologia da Saúde e Terapia Cognitivo-Comportamental, a profissional tem contribuído activamente para a formação de novos quadros, aliando prática, investigação e ensino com uma visão integrada do ser humano.
Nesta entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, a psicóloga partilha uma leitura profunda sobre os desafios emocionais dos angolanos, o impacto do ritmo urbano de Luanda e a importância de construir um equilíbrio sustentável entre vida pessoal e profissional, num contexto cada vez mais exigente.

RC: Tendo nascido e crescido em Luanda, de que forma a realidade social angolana influenciou a sua escolha pela Psicologia da Saúde?
EM: Nascer e crescer em Luanda- Angola é desde cedo ser confrontada com uma realidade onde os factores sociais, económicos e familiares influenciam profundamente a saúde das pessoas. E é essa realidade que despertou em mim (ainda na adolescência) uma sensibilidade particular em compreender o ser humano de forma integrada.
Assim, a Psicologia da Saúde surgiu, como uma escolha consciente, orientada para uma abordagem que valoriza não apenas a dimensão física, mas também o equilíbrio emocional, espiritual, e o contexto de vida de cada indivíduo.
RC: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem ganho destaque em Angola. Como avalia a aceitação desta abordagem no contexto angolano?
EM: A ciência da psicologia no geral é “ nova”, mas apesar do “estigma” ainda existir, já podemos ver resultados significativos. Sendo assim, a Terapia Cognitivo-Comportamental tem conquistado um espaço relevante em Angola, sobretudo pela sua abordagem estruturada e orientada para resultados.
Verifico, na prática clínica, uma crescente abertura por parte dos pacientes, que procuram não apenas compreender o que sentem, mas também adquirir ferramentas concretas para lidar com os seus desafios. Ainda assim, permanece ser essencial continuar a investir na literacia em saúde mental.
RC: Com mais de uma década de experiência clínica e académica, quais são os principais desafios emocionais que os angolanos enfrentam actualmente?
EM: Os desafios emocionais mais recorrentes incluem níveis elevados de ansiedade, stress crónico e uma crescente instabilidade emocional associada a factores económicos e profissionais e familiares. Observa-se também uma incidência significativa de quadros depressivos, muitas vezes silenciosos. Trata-se de uma população que, em muitos casos, vive em constante estado de adaptação, o que pode conduzir a um desgaste emocional progressivo.
RC: O lifestyle urbano em Luanda é cada vez mais exigente. De que forma isso impacta a saúde mental dos profissionais?
EM: Sim, O contexto urbano de Luanda caracteriza-se por um ritmo acelerado, exigente e bastante desafiador, marcado por factores como o trânsito intenso, a pressão por desempenho e a instabilidade socioeconómica.
Sem dúvidas que este cenário contribui para o aumento de níveis de stress e para o surgimento de quadros de esgotamento emocional.
A médio e longo prazo, esse impacto reflecte-se não apenas na saúde mental, mas também na qualidade de vida e na produtividade dos profissionais.
RC: Enquanto docente universitária desde 2013, que mudanças observa nos estudantes de Psicologia ao longo dos anos, sobretudo no que diz respeito ao bem-estar emocional?
EM: Ao longo dos anos, tenho observado estudantes mais informados e conscientes em relação às questões de saúde mental. No entanto, essa maior consciência vem acompanhada de níveis acrescidos de ansiedade, insegurança e pressão por desempenho.
Existe hoje uma maior abertura ao diálogo emocional, mas ainda desafios significativos na aplicação prática de estratégias de autorregulação.
RC: A Doutora teve um papel activo na criação e implementação de cursos no CIS. Como avalia o crescimento da formação em Psicologia em Angola?
EM: Não posso negar que temos tido crescimento. Contudo, é fundamental que esse crescimento seja acompanhado por um reforço da qualidade formativa, nomeadamente ao nível da prática clínica supervisionada e da investigação científica. Pois a consolidação da área depende, em grande medida, da preparação sólida dos seus profissionais.
RC: No contexto corporativo angolano, ainda existe resistência em abordar a saúde mental no trabalho?
EM: Sem duvidas, particularmente em contextos organizacionais mais tradicionais, onde a saúde mental é frequentemente encarada como uma questão de foro individual. No entanto, é visível uma mudança gradual, com um número crescente de empresas a reconhecer a importância do bem-estar emocional no desempenho e no clima organizacional.
RC: As empresas em Angola já estão preparadas para investir seriamente na gestão emocional dos seus colaboradores?
EM: Embora algumas organizações já demonstrem maior abertura e iniciativa nesta área, de forma geral, o investimento na gestão emocional ainda se encontra numa fase inicial. Torna-se essencial reforçar a consciência de que o bem-estar psicológico dos colaboradores constitui um factor estratégico para a sustentabilidade e o crescimento organizacional.
RC: Quais são os comportamentos mais comuns que limitam o crescimento pessoal e profissional dos angolanos?
EM: Entre os principais factores limitadores destacam-se o medo da mudança, a dificuldade em manter consistência ao longo do tempo e a dependência de validação externa. Acresce ainda a presença de crenças limitantes que condicionam a forma como o indivíduo posiciona-se perante oportunidades de crescimento.
RC: Num país onde a resiliência é muitas vezes uma necessidade, como podemos diferenciar resiliência saudável de sobrecarga emocional?
EM: A resiliência saudável traduz-se na capacidade de adaptação às adversidades, preservando o equilíbrio emocional e a funcionalidade.
Por outro lado, a sobrecarga emocional manifesta-se quando o indivíduo permanece em esforço contínuo, sem espaço para processar as suas emoções. Nesses casos, o esgotamento torna-se inevitável, ainda que nem sempre imediatamente visível.
RC: Que hábitos simples recomenda para melhorar o bem-estar emocional no dia a dia, especialmente para quem vive a rotina intensa de Luanda?
EM: Num contexto desafiador como o de Luanda, é fundamental resgatar hábitos simples que promovam equilíbrio no dia-a-dia. A destacar, a importância de pequenas pausas conscientes ao longo do dia, a criação de limites entre a vida profissional e pessoal e a valorização do descanso de qualidade.
Práticas como a respiração consciente, momentos de silêncio, actividade física regular e o fortalecimento de relações interpessoais saudáveis fazem uma diferença significativa. Mais do que grandes mudanças, são as pequenas escolhas consistentes que sustentam o bem-estar emocional.
Ham, e nunca se esquecer de ser leal a pessoa que você é…
RC: Fora da sua rotina profissional, como define o seu próprio lifestyle? O que faz para manter o seu equilíbrio emocional e mental?
EM: Procuro cultivar um estilo de vida equilibrado e intencional, onde o autocuidado não seja negligenciado.
Valorizo momentos de pausa, escolho lugares e pessoas de qualidade; valorizo o contacto com a família e actividades que me permitam desligar da exigência profissional.
Acredito que, para cuidar do outro com qualidade, é essencial cuidar de mim mesma. Por isso, procuro manter práticas que promovam o meu equilíbrio emocional, respeitando os meus limites e criando espaços de recuperação ao longo da rotina.
Com isso, certifico-me de que as minhas emoções são a bússola que garantem a minha autenticidade e promovem o meu bem-estar.



